O próximo governo terá uma tarefa difícil e politicamente ingrata pela frente na transição da reforma tributária, que começa a entrar em vigor em 2027. Aprovada no final de 2023 sob a promessa de modernizar a economia e sepultar um sistema complexo e caótico, a reforma tributária brasileira entra agora em sua fase mais crítica. A nova administração não herdará um modelo pronto para fotos de inauguração, mas sim um canteiro de obras em plena atividade. PUBLICIDADENo programa Não vou passar raiva sozinha, a colunista do Estadão Maria Carolina Gontijo, a Duquesa de Tax, analisa as dificuldades da transição da reforma tributária nos próximos anos. Esse é um dos pontos que economistas irão discutir nesta quarta-feira, 27, no primeiro encontro do Brasil Adiante, série de eventos promovida pelo Estadão nos meses que antecedem as eleições de outubro, para construir uma agenda integrada e executável de soluções para os primeiros 24 meses do próximo governo.Longe de entregar a prometida simplificação fiscal definitiva, a futura gestão terá de gerenciar o delicado período de convivência entre o antigo e o novo regime tributário, em que os custos da transição já começaram a ser cobrados e os benefícios mais claros ainda parecem distantes no horizonte.Reforma Tributária: CBS começa a entrar em vigor em 1º de janeiro de 2027 Foto: Adobe StockO cronograma estabelecido prevê que a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), que substitui o PIS e a Cofins na esfera federal, passe a valer de forma integral a partir de 1.º de janeiro de 2027. A implementação do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), que substitui o ICMS e o ISS, começa em 1.º de janeiro de 2029 e vai até 2033. “Se a reforma tributária fosse uma reforma de uma casa, esse seria aquele momento em que a parede já foi quebrada, tem um monte de poeira espalhada e a gente continua morando ali porque não tem como morar em outro lugar, mas a cozinha não está pronta, o banheiro está interditado e colocaram um plástico no sofá. Essa é a visão de uma reforma”, diz a Duquesa.PublicidadeLeia tambémGuia de sobrevivência: o que saber na última semana para a entrega da Declaração do IRTaxa das blusinhas: como o problema virou uma dor de cabeça e um desgaste para o governo LulaReforma tributária pode virar armadilha eleitoral para Lula com sensação de mais impostoSegundo ela, a simplificação está prometida, mas no projeto final. “Quem assumir em 2027 vai governar justamente na fase em que ela (a reforma) ainda não entregou os ganhos de forma plena e já começou a cobrar o preço político da transição. Na prática, a transição é o lugar onde as boas intenções vão encontrar a vida real."Com a proximidade das eleições, o assunto voltou com força. E até a sugestão de um adiamento para a entrada em vigor da CBS em janeiro de 2027 surgiu. Até uma Proposta de Emenda à Constituição (PECs) entrou no radar, mas esbarra na complexidade burocrática e na insegurança jurídica. Parar o processo a esta altura significaria “frear um veículo em descida livre” e descartar anos de investimentos privados e públicos em regulamentação e adaptação de sistemas corporativos.A grande armadilha para os próximos governantes e legisladores reside na histórica tentação brasileira de ceder a pressões setoriais e regionais. Se cada reclamação legítima ou lobby organizado resultar na criação de regimes específicos e concessões de exceções particulares, o espírito original da reforma será corrompido antes mesmo de sua conclusão, prevista para 2033. O risco iminente é gastar bilhões de reais e suportar o desgaste político da transição apenas para entregar, no futuro, um novo emaranhado de regras que replique os mesmos vícios do “manicômio fiscal” atual.“A gente precisa saber quem vai ter responsabilidade suficiente para conduzir essa obra sem transformar a reforma tributária, que nasceu para simplificar o Brasil, em mais uma construção torta no nosso lotado condomínio de gambiarras nacionais”, afirma a Duquesa.ProgramaTodas as quintas-feiras, às 9h30, a Duquesa de Tax faz reacts (comentários sobre outros vídeos ou entrevistas) do noticiário econômico no Estadão. Além disso, tem o programa semanal Não vou passar raiva sozinha. Os vídeos inéditos vão ao ar sempre às segundas-feiras, às 9h30, para assinantes do Estadão. Cortes do programa são distribuídos ao longo da semana nas redes sociais e na Rádio Eldorado. A atração também tem uma versão em podcast.PublicidadeSiga a Duquesa de Tax no EstadãoNão vou passar raiva sozinha no SpotifyNão vou passar raiva sozinha no Apple Podcasts