Ministro de Minas e Energia defendeu leilão que contratou usinas termelétricas"Posso afirmar que isso nos dará segurança energética para a próxima década", disse Alexandre Silveira no dia da realização do leilão. Crédito: Repordução Youtube Ministério de Minas e EnergiaGerando resumoBRASÍLIA — A área técnica do Tribunal de Contas de União (TCU) concluiu que há indícios de sobrepreço no leilão de energia bilionário realizado pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para contratar potência de usinas termelétricas. Os técnicos recomendaram suspender a contratação das térmicas, que deveriam suprir a necessidade do sistema elétrico pelos próximos 15 anos. PUBLICIDADEO ministro Jorge Oliveira, relator do processo, decidiu não seguir a recomendação da área técnica pela suspensão. Ele determinou que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) responda, em cinco dias úteis, sobre eventuais irregularidades apontadas no leilão. O leilão teve entre os vencedores a Eneva, empresa que pertence ao BTG, de André Esteves; a Âmbar Energia, dos irmãos Joesley e Wesley Batista; e a Petrobras, controlada pelo governo federal. A Casa dos Ventos, empresa de energia eólica do empresário Mário Araripe, passou a atuar para anular o leilão. As grandes indústrias também agem para suspender a contratação, temendo um aumento tarifário. UTE Juiz de Fora - Petrobras Foto: Divulgação/PetrobrasComo o Estadão mostrou, o certame abriu uma disputa bilionária entre gigantes do setor elétrico, virou uma nova frente de pressão contra o petista em ano eleitoral e ainda pode ter um impacto de R$ 500 a R$ 800 bilhões na conta de luz dos consumidores de todo o País. PublicidadeCom o leilão suspenso, integrantes do governo e defensores do certame dizem que o poder público terá de contratar as mesmas usinas de forma emergencial e que o custo para o consumidor poderá ficar ainda maior. Essa não é uma compra tradicional de energia. O leilão de capacidade serve para contratar usinas que só entram em operação quando o sistema nacional mais precisa, como nos períodos de estiagem que afetam a produção das hidrelétricas ou nos horários de maior consumo de energia, entre 18h e 22h. O preço pago para as empresas, no entanto, é pela disponibilidade dos empreendimentos, independentemente do uso. O resultado do leilão seria homologado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) nesta terça-feira, 19, que também decidiu suspender a decisão. Os primeiros contratos seriam assinados a partir de quinta-feira, 21. A recomendação dos técnicos do TCU ainda passará pelos ministros da Corte, que decidirão sobre o processo. Em paralelo a isso, a Justiça Federal julga uma ação judicial que também pede a suspensão do leilão. Leia maisIndústrias tentam escapar de aumento tarifário e agem contra leilão bilionário de energiaLeilão de energia abre disputa bilionária, pressiona governo Lula e pode encarecer conta de luzNo total, o governo contratou 19 gigawatts (GW) de potência no sistema, entre termelétricas e hidrelétricas. O volume contratado supera a capacidade instalada de Itaipu e representa cerca de um quarto do consumo de energia médio diário brasileiro. A área técnica do TCU sugeriu a suspensão apenas da contratação das térmicas movidas a gás natural e carvão mineral vencedoras do primeiro dia do leilão, que representam cerca de 15,2 GW do volume contratado.PublicidadeA Unidade de Auditoria Especializada em Energia Elétrica e Nuclear (AudElétrica), setor técnico responsável pela análise do processo no TCU, identificou “risco de contratação desvantajosa e de longa duração, com repercussões expressivas para os consumidores e para a racionalidade econômica da expansão de potência no sistema elétrico nacional.”Os técnicos concluíram que houve aumento excessivo dos preços contratados pelo governo, pouca concorrência e um deságio muito pequeno por parte dos vencedores. “A conclusão técnica que se impõe é a de que a contratação dos produtos termelétricos do Leilão Aneel 2/2026 não se revela apenas onerosa, mas estruturada em bases que indicam possível sobrepreço significativo, fragilidade concorrencial e reduzida aderência aos princípios da economicidade e da modicidade tarifária”, diz a análise. Ao apontar o sobrepreço, os técnicos avaliaram que a contratação de toda demanda do leilão apenas por hidrelétricas representaria uma economia potencial de R$ 262 bilhões em 15 anos. Apesar do apontamento, especialistas, empresas e o governo concordaram que é impossível não contratar potência das usinas termelétricas para garantir o fornecimento de energia em períodos de seca e horários de pico — a divergência se dá no volume da contratação e nos preços. PublicidadeCONTiNUA APÓS PUBLICIDADEOs preços-teto, que representam o valor máximo que o governo pagaria pela contratação, foram publicados inicialmente no dia 10 de fevereiro de 2026 e revisados no dia 13. Em 72 horas, o governo dobrou o preço para usinas existentes, elevando o valor de R$ 1,12 milhão para R$ 2,25 milhão por MW/ano, e aumentou o valor em 81% para novas usinas, passando de R$ 1,6 milhão para R$ 2,9 milhões por MW/ano. O Ministério de Minas e Energia justificou que a revisão foi necessária pois, caso contrário, o leilão seria fracassado. As empresas dizem que os custos globais das usinas, principalmente o preço das turbinas e dos demais insumos, aumentaram em 70% após o aumento da demanda para alimentar datacenters. A Petrobras, que conseguiu recontratar nove usinas térmicas que estavam ficando sem contrato, foi uma das companhias que pediu a revisão. O deságio médio entre o preço-teto e o valor vendido foi de 5,5%. Para os técnicos do TCU, os resultados “sugerem ambiente de competição limitada e reforçam a percepção de que os preços ofertados estão muito além do razoável.” Um dos argumentos que é a diferença entre os investimentos declarados pelos vencedores nas usinas termelétricas alimentadas a gás natural e os investimentos considerados pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) no cálculo dos preços-teto para os mesmos empreendimentos foi de R$ 54,9 bilhões. O ministro Jorge Oliveira, do TCU, ao analisar o relatório da área técnica, optou por um caminho alternativo, descartando a suspensão da contratação. “Já adianto que, apesar de concordar substancialmente com a análise da unidade especializada, entendo que a situação atual do certame permite que se explore caminhos alternativos para a resolução do problema”, afirmou.PublicidadeTermelétricas defendem leilão e dizem que, sem contração, custo iria a R$ 970 biEm meio ao impasse, a Associação Brasileira de Geradoras Termelétricas lançou um manifesto com um grupo de especialistas defendendo o leilão. Com base na necessidade apontada pelo Operador Nacional do Sistema Elétrica (ONS), o setor aponta que, sem o leilão, o consumidor pagaria muito mais, aumentando os custos para R$ 970 bilhões em 15 anos, sendo 210 bilhões devido ao risco de blecautes e R$ 760 bilhões devido a racionamentos. O grupo argumenta que a contratação das usinas garante “confiabilidade 24 horas por dia, sete dias por semana” para o sistema e que os custos globais dos empreendimentos justifica os preços praticados. O armazenamento de energia por baterias, como quer o setor de renováveis, não seria suficiente, segundo o manifesto das termelétricas. “O tempo de descarga de uma bateria é de quatro horas. Como atender a um critério que demanda 24 horas por dia? Multiplicando as baterias?.”/Colaboraram Renan Monteiro e João Caires