Com o passar dos anos, até as memórias mais queridas podem perder seus contornos — mas não necessariamente o amor 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Mas, vó, você teve um pai?” A pergunta do neto derrubou todo mundo na gargalhada. Ela riu junto, ante a inocência da criança. Mas é claro que eu tive, menino, eu lá nasci de chocadeira? Depois, o almoço acabou, cada um voltou para a sua casa e ela ficou na solidão do restauro, aquele silêncio que só chega quando a última porta se fecha e persegue a semana inteira. Foi ali que entendeu o que o menino tinha indagado sem saber direito por quê: ela chegou àquela idade matusalêmica em que até as crianças se espantam de que ela um dia foi criança. Era uma pergunta que nem mesmo ela se fazia mais. Tanto tempo que o pai morrera, que ela não lembra o tom da voz dele. Era grave? Era engraçada? Ele falava alto, falava pouco, ria com facilidade? O amor pela lembrança continua inteiro; o que se gastou foi a própria lembrança. Ela se lembra de que ela lembra, mas não se lembra do quê. Existem pessoas que se lembram do pai com raiva. Outras com mágoa, com alegria, com medo, com alívio. Como elas têm sorte de definir vivamente, e com tanta certeza, o que sentem. Duro é chegar, ao cabo de muitas décadas, só sentindo as lembranças. Sobrou algo como uma doçura, quando ela gira a cabeça para trás dos próprios olhos, em busca de momentos concretos do passado. Será que essa doçura vem dele, do homem que existiu, ou dessa benesse que o tempo às vezes concede aos mortos, lixando as arestas até sobrar só o que é bom de segurar? Ele foi mesmo aquele homem? Ou ela foi construindo, ano após ano, um pai à altura da falta que ele faz? Ela poderia dar uma voz a ele. Escolher uma, entre as vozes possíveis dos homens daquela geração, instalá-la na memória e deixar que trabalhasse ali por conta própria. Ninguém saberia do truque. Mas ela saberia. Então ficaram alguns flashes. O jornal dobrado em quatro antes da leitura. As chaves na fechadura sempre no mesmo horário. Ela não sabe se corria até a porta ou se continuava onde estava quando as chaves apareciam. Um casaco no mesmo cabide, o cheiro de cigarro frio no forro. Nada disso forma uma cena, mas tudo traz uma alegria antiga, sem origem localizável, como música que a gente reconhece antes de lembrar o nome. Existe uma fotografia. Ele aparece de terno claro, encostado num carro que ela nunca soube de quem era, olhando para alguém que ficou fora do quadro. Ela já olhou mil vezes para essa imagem, à procura de um indício. A fotografia não confirma nem desmente. Dizem que a dor tem etapas. No começo doeu como dói em todo mundo, de uma forma estuporada. O que ninguém conta é o que vem depois. Não é esquecimento nem indiferença, é uma coisa mais silenciosa que ninguém chama de luto, porque o luto tem prestígio, tem cerimônia e tem quem pergunte ainda como você está. Ninguém, nunca mais, lhe perguntou se ela sente falta dele, porque praticamente não sobraram testemunhas de que, um dia, ela foi a filha de um homem. Era tão menina! Isso aqui não tem nome. É o amor continuando sozinho, sem o objeto e sem gente que pode comprovar que um dia ele existiu. É só o tempo fazendo o que o tempo sempre faz. Talvez seja a última coisa que um pai ensina, e ele ensina de longe, muito depois de ter ido embora: que a gente sobrevive até à saudade.