Faz 12 anos que não vejo meu pai. Como ele teve coragem de me abandonar desse jeito? Ele, que tinha vários defeitos, mas nenhum deles era ser mau pai, foi embora e não voltou.

A morte traz essa sensação infantil de abandono. Acho que sempre somos crianças perante a partida de quem nos criou.

Chega dia 2 de julho outra vez. A mesma foto de novo, não há outras. E a mesma dor. Grande, perfurante. Com a diferença de mais algumas milhares de horas. E de um corpo, o meu, que precisou se alargar não sei em quantas vezes para comportar uma ausência crônica.

A parte mais triste da morte é essa sua característica definitiva. Depois do fechamento do caixão, o rosto nunca mais aparece em nenhuma nova foto; em nenhum domingo com cheiro de carne na brasa e cerveja gelada; em nenhuma Copa do Mundo; em nada. E isso assusta mais do que qualquer filme de terror.

Não há criação de novas memórias e você precisa mastigar as mesmas, já moídas pelo tempo, enquanto a voz do pai vai pouco a pouco se apagando. Ele não tinha celular, não gravou nenhum áudio pelo WhatsApp.