Nesta segunda (8) fez cinco anos que a minha versão básica, modelo simples, sem acessórios, morreu. Há cinco anos, eu e meu barrigão entrávamos num hospital vazio, enquanto 2.000 pessoas morriam de Covid por dia no Brasil. Eu monitorava os batimentos cardíacos na tela, pela primeira vez pensando que, durante 40 semanas, tive dois corações batendo dentro do mesmo corpo. Agora um deles moraria fora e nunca mais eu seria a mesma pessoa.
Estreei nesta coluna também num dia 8, quando minha filha fez oito meses. No primeiro texto sobre ela, escrevi que a mudança operada pelo seu nascimento foi tão profunda que era como se o conjunto formado por cada uma das minhas células não fosse mais o mesmo. Como um Lego que usa as mesmas peças, mas é montado de um jeito completamente novo.
"A pessoa que sou agora tem tudo que eu era antes, mas o meu eu anterior, aquele que não era mãe, morreu. Não vejo sentido em continuar procurando por ele. Tentar fazer isso é imaginar um mundo em que minha filha não existe, nunca existiu", escrevi.
Eu ainda não fazia a menor ideia de quão verdade isso se tornaria nos anos seguintes. Ser mãe de um bebê é muito diferente de ser mãe de uma criança cheia de opiniões e sentimentos. O mundo como eu conhecia se transformou de uma forma que eu jamais teria imaginado. E não teria mesmo, porque a maternidade nunca esteve no meu radar.












