"Sou paciente terminal." Foi esta a primeira mensagem que você me mandou, seis meses atrás.
"Eu sei que vou morrer de câncer." Faz 12 anos que converso com pessoas com cânceres avançados como o seu. Você foi a única que verbalizou. Talvez tenha sido a única que realmente aceitou.
E isso mudou tudo, né? Você já vivia intensamente antes, mas planos ainda podiam ser feitos para os anos seguintes. De repente, tudo ficou muito urgente. Coisas que você sonhava em repetir, aventuras na natureza, projetos que podia realizar, mas você sempre adiou. Quando a limitação física começou a cobrar seu preço, você trocou a corrida pela guitarra. "Eu sou muito ruim, mas estou me divertindo."
Você quis fazer um velório em vida. "O velório vai ser dia 30 de maio", disse naquele 25 de março. Eu fiquei com medo. Medo de não dar tempo. Quando meu sogro adoeceu, no ano passado, a gente planejou uma última festa de aniversário, para o mês seguinte. "Por que vocês não antecipam?", o oncologista perguntou, delicadamente. Fizemos uma festa duas semanas depois, meio de celebração da vida, meio de despedida. Ele morreu um mês antes de fazer 75 anos.
Depois de muita conversa, contei sua história aqui na Folha, em 24 de abril. Você não estava bem naquele dia. "Desculpe a demora, fiquei acamado, olhar celular dava enjoo."










