Por volta dos 16 anos de idade, meu irmão se fechou no quarto. Tinha decidido que agora aquele seria seu mundo: estantes e pilhas de livros em quadrinhos, uma cama e algumas roupas jogadas, cercados por quatro paredes e uma porta obstinada em resistir aos mais fortes chutes e socos. O portal em que se abrigava era atravessado apenas por idas rápidas ao banheiro ou pratos de comida deixados na porta.

Eu nunca soube muito bem o espaço que ocupava no mundo dele, talvez porque esse espaço mesmo passasse por constantes redefinições. Meu irmão ia e vinha, entre nosso mundo e o mundo dele, como quem entra e sai de casa. Minha memória me decepciona, acho que escolheu apagar os momentos mais difíceis, mas ainda sei que ele me preservava mesmo quando a esquizofrenia o deixava mais violento.

Quando saiu do quarto, o mundo dele se apoderou do nosso, a fronteira ficou mais tênue. A geladeira guardava comida infiltrada pelo remédio, sem que ele soubesse. As ameaças violentas, contra si e contra os outros, impunham um toque de recolher a cada um em seu próprio quarto. Fechado no meu, via minha casa se converter em pequenos mundos isolados, que se cruzavam apenas nos momentos inevitáveis do cotidiano.