Eram quase 2h quando ouvi o barulho da porta do banheiro batendo. Era uma madrugada dessas polares que têm feito em São Paulo neste ano. O frio, com já contei algumas vezes, atormenta o povo cadeirante. Os cambitos congelam, as pernas não esquentam e a cadeira de rodas compõe o conjunto frigorífico com suas partes metálicas.
"Papai, não estou me sentindo muito bem. Minha cabeça tá rodando, minha barriga tá estranha", falou minha filha biscoita, a Elis, com cara de choro na beirada da minha cama.
Não vou mentir que joguei o edredom quentinho do lado e saltei porque minha velocidade natural de viver não permitiria, mas fui acudir minha cria o mais rápido que pude. Ela não costuma choramingar por causas que não exijam, no mínimo, um analgésico básico qualquer.
Dei lá engana menino e rapidamente ela reagiu. "Tô melhorando, papai. Obrigada. Vou tentar dormir". Fiquei mais um pouco ali perto dela, segurando na mão de nossa senhora da bicicletinha para não congelar, e logo ela dormiu. Eu sabia que ali tinha algo novo naquela vidinha. Fiquei velando a tranquilidade dela e meus pensamentos por algumas horas antes de voltar a dormir.
Fazia alguns meses que minha menina vinha dando sinais de ruizeras repentinas, que chorava em situações cuja emoção nem era tão convidada assim, que relatava uns incômodos barrigais que não consegui relatar ao certo qual seria o fim.






