Apertei o interfone, o portão se abriu e caminhei até o prédio, onde uma senhora me aguardava segurando a porta. Hesitei. Seria uma moradora gentil ou uma porteira solícita? Não era simples curiosidade, a resposta tinha consequências práticas. Fosse ela a porteira, eu precisava dizer meu nome, o nome do amigo que tinha ido visitar e aguardar a liberação. Fosse uma moradora, bastava um "obrigado" e seguir pro elevador.
Enquanto dava o primeiro passo pra passar pela senhora –com o canto dos olhos notei que não usava uniforme, mas nem todos os porteiros usam–, fazia as contas socio-aritméticas do homem-branco-hétero-cis em 2026. Quais as chances de eu cometer alguma mancada a partir da leitura equivocada da função (ou favor) daquela pessoa?
Caso fosse a porteira e eu passasse direto, estaria esnobando sua autoridade. A atitude poderia ser vista como classista. Talvez machista. Caso fosse uma moradora e eu perguntasse "você é a porteira?", o classismo, quem sabe, aflorasse do lado de lá: "Imagina, porteira! Você sabe com quem tá falando?! Sou juíza de terceira instância!".
Enquanto dava o segundo passo, já conseguia ver o vídeo da câmera de segurança vazado, minha gafe sendo debatida na internet e imaginava quais seriam os nomes, em inglês, para as duas possíveis tropeçadas no protocolo social —"manignoring?", "mandowngrading"? Tive, então, uma iluminação: não existe mulher trabalhando em portaria de prédio residencial. Botei as fichas no insight, optei pelo "obrigado", passei reto e entrei no elevador ainda esperando (temendo) um "ei, tá indo pra onde?", mas só ecoou pelo hall o som distante de um carro da pamonha.









