No carro, ouvindo "Meu Mundo É Hoje", do gênio Wilson Baptista, inconfundível na voz de Paulinho da Viola, tive a ideia desta coluna. Era fim de noite e o trânsito se arrastava na saída do aeroporto de Guarulhos para casa, depois de nove meses longe do Brasil. Contemplativa, dentro do carro o tempo tinha outra velocidade, a mesma de um samba que não envelhece, que anda com o vagar de quem já aprendeu que a pressa é inimiga da cadência.

"Eu sou assim, assim morrerei um dia/ não levarei arrependimentos, nem o peso da hipocrisia/ tenho pena daqueles que se agacham até o chão/ enganando a si mesmo por dinheiro ou posição / nunca tomei parte desse enorme batalhão/ pois sei que além de flores nada mais vai no caixão."

Meu pai, que tinha essa música como lema de vida, foi estivador do porto de Santos. Ali, no apartamento térreo do Canal 5, o samba entrava com a maré e não saía mais. Ele tinha uma coleção única de vinis, que começava a esquentar o som pela manhã e ia noite adentro. Com seu reco-reco, tirava sarro de que era sambista, arriscava passos desengonçados e tentava fazer seu partido alto, levando a mim, minha mãe e meus irmãos às gargalhadas. Os clássicos sambas de Paulinho são companhia dessas memórias felizes.