Hoje, uma conhecida da minha família disse que estaria atarefada com o Dia dos Pais. Então, emendou: "Que pena que você não tem mais seu paizinho". Me senti na obrigação moral de dar uma resposta malcriada. Mas tudo que veio à mente foi: "Nada disso, eu tenho pai, segue bem vivo aqui".

A resposta, tanto abstrata, quanto firme, com certeza nasceu inspirada na leitura desta semana: o livro infantil "A Raquete do Vovô" (Editora Quelônio), obra de estreia da escritora, jornalista e roteirista Nina Ramos, e ilustrada por Carol Cuquetto.

Levei a raquete debaixo dos braços, pra lá e pra cá, nos meus trajetos de trem. Tito, um menino brincante e curioso, foi meu grande companheiro. Afinal, o livro nasce, na ficção e na realidade da vida, de uma indagação que muda a rota do passado e transforma o presente e o futuro.

"Um dia, o menino entrou no quarto e reparou em uma raquete de madeira muito bonita pendurada na parede. ‘De quem é?’, perguntou para a sua mãe. ‘É a raquete do vovô’, ela respondeu".

Há perguntas capazes de abrir uma fresta no tempo. Esta, com certeza, convocou a mãe de Tito, a própria autora, a mergulhar na memória do avô Cacalo —o pai de Nina, que morreu quando ela tinha um ano e meio. "Não convivi, não lembro da voz. Tenho fragmentos. Quando eu me dei conta do tamanho da presença dessa ausência dentro de mim, eu falei: ‘Preciso escrever isso’."