É nos bons momentos que mais sinto saudade do meu pai. Curioso paradoxo. Não é nos momentos difíceis, nas provações e nos acidentes de percurso que mais sinto a sua morte precoce. É nas alegrias. Podem ser coisas irrisórias, como a vitória do seu time de futebol. Ou coisas solenes, como a entrada
recente do historiador Marc Bloch no Panthéon da França.
Meu pai foi professor de história —assim como minha mãe, aliás. A Idade Média era a sua praia, e Marc Bloch, um de seus heróis.
Herdei dele o gosto pela figura e, nestes dias de consagração institucional, reli o exemplar paterno de "A Estranha Derrota", o testemunho que o autor escreveu nos meses seguintes à capitulação da França na Segunda Guerra Mundial. Sorri muitas vezes. Os sublinhados e os comentários do meu pai são exatamente os mesmos que eu teria feito se encontrasse esse texto pela primeira vez. De certa forma, foi como falar e concordar com ele.
"A Estranha Derrota" é, como o título indica, uma análise das razões que levaram ao colapso da França em 1940 e à invasão dos nazistas. Para Bloch, a causa principal não foi só militar ou estratégica. Foi intelectual e moral.







