Morreu José. Foi anteontem de madrugada, o coração parou de repente e nem deu tempo de chegar ao hospital aqui da cidade. Eu o conhecia do bairro, cuidava dos jardins, um homem simples, poucos estudos e bom coração. José nunca aprendeu a ler e gostava quando eu narrava umas histórias, batia na porta e pedia um causo novo, faz-favô.

Achou triste demais a saga do burrinho pedrês, chegou mesmo a limpar uma umidade que ameaçava escapar do olho. Bateu com a bota no chão, firme, ao descobrir o fim da hora e vez de Augusto Matraga, esse era bravo, era bravo. José morreu sem saber que sabia quem era João Guimarães Rosa, mas levou o escritor mineiro no coração.

Teve um dia em que José chegou agitado, se eu sabia que a dona da loja tal tinha sido flagrada pelo marido em pleno ato com o melhor amigo dele, e ainda na cama do casal. Fosse na época da fazenda, acabava mal. Falei pra ele que toda cidade tem muito disso, e que a nossa teve inclusive uma moradora ilustre, que inspirou Capitu. Uma mulher real que trocou cartas com o maior escritor que o Brasil já teve, uma mulher cheia de personalidade e que vivia em paixões. Daí narrei a história da Capitu e do Bentinho. Tem coisa aí, falou José, e parece com hoje, parece não? José morreu sem saber que sabia quem era Machado de Assis, mas levou o escritor carioca no coração.