José Utsch de Lima era um homem de muitas histórias. A que ele mais se orgulhava começou a ser escrita em guardanapos de papel. Eram pequenas frases anotadas nas manhãs de domingo, na beira de uma lagoa. Era o esboço do que seria o seu primeiro livro.
Na festa de lançamento, serviu cachaça, refrigerante e batidas. Recebeu polícia e traficantes, freiras e aquelas que chamava de "mulheres da vida", pobres e ricos. Mandou servir leitoa, chouriço, codorna frita, torresmo, mexidão, jiló, algodão doce, pipoca e picolé. "Despesa, só o livro", ele avisou em um cartaz.
Motorista de ônibus, carteiro, vendedor, ele fez um punhado de coisas, como gostava de descrever. Deixou Conceição do Mato Dentro (MG), com mulher e filhos, para construir a vida na também mineira Lagoa Santa, onde foi enterrado no último dia 13 de julho, um dia depois de sua morte.
Ele deixa para trás uma cidade que o adotou e para cuja lagoa, levou até capivaras, sem nenhum consentimento das autoridades. Ele se sentia dono da lagoa. Contava aos outros que conversava com os patos, dizendo nomes aleatórios e apontando aqueles que se movimentavam. Havia mesmo uma comunicação.
O Lima Escritor, como ficou conhecido, era um entusiasta, um personagem que ilustrou reportagens em TVs e jornais, como a Folha. Era o tipo de homem que tirava a foto de uma flor que nasceu em uma fresta da calçada e escrevia um texto sobre o milagre da vida que desafiava o cimento. Era tudo no papel.







