Ao lado da cama onde meu pai, Leonídio Balbino da Silva, viria a falecer na noite seguinte, em 15 de junho, me dei conta do óbvio até então ignorado por pensamentos que resistiam a aceitar sua perda, mas que ali assimilavam toda sua grandeza enquanto meus olhos testemunhavam uma fragilidade antes inconcebível.
Se aquele altivo homem de 90 anos não tivesse dado uma volta ao próprio destino, não teria conhecido minha mãe, Leila Terezinha da Fonseca Silva. Se tivesse desistido de quebrar o ciclo da pobreza do agreste de Alagoas, seus seis filhos não existiriam. Se tivesse capitulado às adversidades, não teria propiciado uma vida melhor a gerações, não só de sua família, mas de tantos outros que ajudou e inspirou.
Em março de 1953, meu pai subiu em um pau de arara com 17 anos incompletos para migrar para São Paulo sem garantias. Trabalhou de faxineiro, atendente, copeiro até aceitar, aos 20 anos, um convite para vender livros de porta em porta. Em sua autobiografia, "Operário do Livro", ele conta que inicialmente resistiu à ideia por ser iletrado. Mas, ao encontrar alguém com fé em seu potencial e que se propôs a ajudá-lo, aceitou.
Um dia, ouviu de um cliente: "Se conseguiu vender analfabeto, imagina o que fará se aprender a ler". Sem sistema público de alfabetização, tempo ou dinheiro para um curso, meu pai acabou criando um método próprio, por associação, em que os livros que vendia serviram de cartilha, assim como os letreiros e as placas das ruas.








