Fã compulsivo de obituários de jornal, a cada qual que leio saio querendo ter conhecido o falecido. É sempre um marido impecável, pai de família exemplar, amigo dos amigos, filantropo, honestíssimo. Um deles, num Natal, salvou da morte um peru. Ao se preparar para abatê-lo, percebeu que, intuindo o fim próximo, a ave o olhara tão compungida que ele, comovido, recolheu a faca. E decidiu que, na noite seguinte, o peru iria à festa como convidado, e não assado, de pernas para cima na bandeja. Por que eu gostaria de conhecer tal pessoa? Para ter certeza de que existira.Quero crer que muitos defuntos, se lessem seu obituário, não se reconheceriam nele. Por quê? Porque as informações de que eles se compõem foram passadas por suas famílias, e nada como as famílias para apagar as menores máculas de seus membros idos.

Uma família revelará tranquilamente que seu ente querido era hipertenso, cardíaco e diabético, mas nunca, se for o caso, que era também alcoólatra. Para quase todo mundo, a hipertensão, a cardiopatia e a diabetes são doenças, mas o alcoolismo é uma sem-vergonhice —embora a OMS também o classifique como doença, sem conotações morais.

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