Esta semana o futebol escreveu dois obituários. Um breve, outro longo. Um célebre, outro quase anônimo 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Franco Baresi e Tássio Santos — Foto: AFP e Botafogo/Divulgação Existe hora certa para morrer? Está escrito? Não está? Esta semana o futebol escreveu dois obituários. Um breve, outro longo. Um célebre, outro quase anônimo. Um brasileiro, um italiano. Um morreu de vendaval, outro de doença. A indesejada das gentes chega para todos. E ocasionalmente nos faz pensar sobre sua antiga adversária. Paramos por um segundo, entre uma curtida, um comentário apressado e a última notícia do feed... e nos espantamos: caramba, fulano morreu. Quem? Ah, o fulano! Vi jogar. Ou... quem? Jogou onde? Pouca gente viu Tássio Maia dos Santos jogar. Ele passou por 27 clubes, mas sua carreira em time grande foi brevíssima. Fez exatamente seis jogos e um gol pelo Botafogo. Era um atacante magro e alto. Na última quarta-feira, aos 41, foi soterrado em Santa Teresa por um muro derrubado pela ventania. Uma tragédia tão improvável que nos obriga a considerar o destino. Vandré Cordeiro ao lado de Tassio Maia; amigos foram vítima de queda de muro em Santa Teresa — Foto: Reprodução Redes Sociais Quando chega a hora, balbuciamos, não tem jeito. As manchetes dos sites de notícia dizem: ex-jogador do Botafogo morre. Nos perguntamos: Tássio? Jogava de quê? Então alguém compartilha o gol que ele marcou e lembramos vagamente. Caramba... esse? Tássio foi famoso por 15 segundos — e esses 15 segundos agora voltam. Uma fração de celebridade. O clube publica sua nota fúnebre. E seguimos a vida — pois a vida segue. Dois dias depois nos chega outra morte, esta imensa para qualquer futebolista: Franco Baresi, o craque da camisa 6, um jogador tão bom que virou apelido. Nos anos 1990 e 2000, em qualquer pelada de esquina... qualquer aspirante a zagueiro virava “Baresi”. Foi o melhor defensor de uma geração que teve zagueiraços como Maldini, Koeman e Aldair. Está na seleção de todos os tempos de muita gente. Líder e símbolo do Milan dos anos 1980 e 1990, ele marcou gente imarcável como Maradona, Klinsmann, Careca e Romário. A pior atuação de Romário na Copa de 1994 foi na final — quando Baresi, voltando de uma cirurgia em tempo recorde, esteve em seu encalço. Maradona admirava tanto o zagueiro que pediu sua camisa depois de vencê-lo em 1989 — e fez questão de usá-la na entrevista depois da partida: — Vou levar essa lembrança por toda a minha vida. Baresi em disputa com Romário: zagueiro se recuperou rapidamente — Foto: Ivo Gonzalez / Agência O Globo Baresi era elegante e cerebral. No Milan, comandava uma linha alta que torturava adversários. Certa vez, deixou o Real Madrid mais de 20 vezes em impedimento na mesma partida. Na seleção italiana, sua atuação impecável durante 120 minutos na final de 1994 acabou atrapalhada por dois pênaltis isolados pra longe. O seu... e o de Roberto Baggio. Morto, Baresi virou capa de todos os jornais esportivos do mundo. Fiquei pensando no contraste. O famoso italiano, mestre dos espaços e antecipações, parecia sempre estar no lugar certo... na hora certa. O quase anônimo Tássio morreu por estar no lugar errado na hora errada. Será? Essa talvez seja nossa visão curta do mundo — nós que teimamos em procurar explicações. Ao lado de Tássio morreu também seu amigo, Vandré Cordeiro da Silva, 43 anos, que deixou a mulher grávida. Reli essa informação, do filho que nascerá sem pai por conta do vento, umas três ou quatro vezes. Tássio e Vandré foram enterrados ontem, no Cemitério São Francisco de Paula, no Catumbi. O funeral de Franco Baresi será na terça-feira na Basílica de Santo Ambrósio em Milão.
A morte e a morte
Esta semana o futebol escreveu dois obituários. Um breve, outro longo. Um célebre, outro quase anônimo







