Prometo que na próxima semana voltarei a escrever sobre pessoas vivas, mas por ora o calendário se impõe: domingo (9) é Dia dos Pais.

Perdi minha mãe há alguns dias e ando um pouco mais sorumbático do que o habitual. Preciso exorcizar as trevas e, adivinhem só, é aqui que o farei.

O apartamento em que cresci ficou desabitado. Agora cabe a mim e às minhas irmãs catalogar e distribuir as tranqueiras dos velhos mortos. Quem já escarafunchou as caixas e pastas dos pais defuntos sabe o peso das lembranças que elas despertam.

Cada ácaro dos armários poeirentos traz a presença de Ana Bertoni Nogueira, professora, morta aos 94 anos em 20 de julho de 2026, e de Earle Ferraz Nogueira, que se escafedeu dez anos antes.

De esquisito meu pai não tinha só o nome —foi um bom homem, justo e absolutamente maluco. Ele tinha ideias peculiares sobre culinária, e a mãe fazia bem em não cobrar seu auxílio na cozinha, pois dali era difícil sair coisa boa.