Minha mãe não conhecia faca afiada, muito menos tábua de corte. Ela picava a comida no ar.
Segurava com uma das mãos o tomate, a cebola, a batata, o que fosse. Com a outra, operava uma faquinha de serra bem chinfrim e inofensiva, dessas de cabo plástico, que a gente encontra nos restaurantes por quilo. Deixava os pedaços grosseiros caírem diretamente dentro da panela com óleo quente, soltando aquela fumaceira que perfumava toda a casa.Eu, espectador de programas de culinária e besta desde pequeno, achava um tanto bruto da parte dela —uma idiossincrasia da minha mãe.
Só bem recentemente, quando começaram a viralizar vídeos de cozinheiras velhas italianas nas redes sociais, entendi que o método rústico vinha de uma longa linhagem.
As nonnas de Instagram destroçam tomates no ar como robôs. Igualzinho fazia Ana Bertoni Nogueira, neta de napolitanos e vênetos, que finalmente pôde descansar no último dia 20.
Mas Ana estava longe de ser uma nonna estereotípica. Sempre trabalhou fora, atitude "prafrentex" no Brasil do regime militar. Como meu pai não era lá tão moderno, ela dobrava o expediente cozinhando à noite e aos fins de semana.







