Quem me vê toda esbelta nem imagina que, assim como muitos, também tenho um problema alimentar de estimação. Não digo "estimação" por carinho (pelo contrário), mas por tempo de convivência. Minha primeira memória estomacal data de 1986. Eu tinha seis anos, usava botas ortopédicas e estava me sentindo deslocada, ou, como se diria hoje, excluída, em uma festinha de aniversário.

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Sem ter com quem brincar, juntei-me a uma mesa de salgados. Comecei a comer doguinhos. Tantos e tão rapidamente que, um tempo depois, passei mal e vomitei —ainda bem que já estava em casa, ou teria aniquilado de vez a minha chance de fazer amigos. Por muitos anos, não podia nem sentir cheiro de salsicha. Só voltei a comer cachorro-quente lá pelos 20 anos. O mesmo se deu com goiabada, que não suporto ver nem farejar até hoje.

Cresci, mas não cresci. Não recebi nem desenvolvi os instrumentos que precisava para acalmar quem realmente comia: a minha angústia. Quando comecei a escrever profissionalmente, a comensal ficou ainda mais faminta. Era eu olhar a página em branco e ter um prazo a cumprir que uma força me levava até a geladeira.