Meu editor sempre diz que sonhos só são bons pra quem sonha. Na mesa de bar, tendem a ser intragáveis — para não dizer inadequados. Na literatura, costumam ser enfadonhos. Especialmente quando longos. Por isso peço a paciência do leitor para contar um que tive na semana passada. Prometo ser breve (não necessariamente adequada).
Eu estava em casa quando dois personagens bateram à porta. Eram dois homens de aparência normal mas, não sei como, eu sabia que eram meus personagens. Disseram que estavam famintos e precisavam comer, eu tinha algo pra dar?Fui correndo até a cozinha. Tentei fazer um sanduíche caprichado mas, como estava com pressa, me atrapalhei, derrubei os ingredientes no chão, malogrando o lanche. Não querendo voltar de mãos abanando, peguei um pão velho e seco e dois copos de água. Fui até a porta. Ao ver o que eu trouxe, um dos personagens se indignou: não queremos pão seco. E o outro: também não queremos água, queremos suco.
Acordei embasbacada com a mensagem que meu inconsciente havia me enviado. Nos dias que antecederam o sonho, eu estava começando a escrever um novo romance. Ao contrário dos que escrevi antes, para os quais me prepararei lendo diversos livros e fazendo pesquisa de campo, para este não havia me aprontado. Comecei a escrever na louca e na pressa, no tempo restrito de uma vida atabalhoada.









