Eu já estava sentada na poltrona quando a moça chegou. Atrasada, nem me olhou direito, só pediu licença para ocupar o seu assento, junto à janela de emergência. Deixei que passasse. Sentei-me novamente, afivelei o cinto, peguei minha leitura. Para a minha surpresa –poucas são as pessoas que largam a tela– ela também tirou um livro da mochila. Um livro cujo vermelho da capa chamou a minha atenção.

Desviei os olhos do que lia e cravei-os sobre a edição da moça. Conforme eu tinha soslaiamente desconfiado, ela segurava meu romance "Suíte Tóquio". Senti um frisson, não sou a Carla Madeira, minhas obras não estão em todo lugar e eu jamais havia flagrado um desconhecido lendo uma delas.

A passageira sabia que eu era a autora? Imaginei que não. Além de muitos leitores desconhecerem o rosto dos autores, a moça mal se sentou e começou a ler, sem sequer me dar aquele bom dia protocolar que se dão os desconhecidos dentro de um Airbus. Era antipática ou estava fissurada na história? Aproveitei a chance para observá-la, para conduzir uma espécie de experimento social a 10 mil pés.

Na verdade, ainda estávamos ao rés do chão. O avião não tinha decolado e a aeromoça começava aquele ritual desconfortável de vestir o colete amarelo e nos contar o que iríamos fazer, provavelmente em vão, se o avião caísse. Costumo ficar tensa nesses momentos, a mente de romancista sempre imaginando em detalhes a catástrofe, a minha mochila destroçada ao lado do meu corpo, revelando que eu viajava com um vibrador e um caderno cheio de anotações sórdidas sobre pessoas do meu círculo afetivo.