Enquanto trabalhava em seu romance mais recente, “Noite no coração”, Nathacha Appanah começou a se questionar se tinha mesmo o direito de contar as histórias daquelas duas mulheres, Emma e Chahinez. Emma era sua prima mais velha, conhecida por ser “moderna”. Uma noite, depois de uma briga, o marido a perseguiu na rua e passou por cima dela com o carro. Seu corpo foi encontrado numa vala na manhã seguinte. Chahinez também foi acossada pelo marido na rua. Ele atirou nas pernas dela diversas vezes, encharcou seu corpo de gasolina e ateou fogo. — Percebi que, se eu quisesse colocar um espelho na frente delas em busca de alguma verdade, precisaria fazer a mesma coisa comigo e falar da jovem que eu fui e de quem ainda tinha tanta raiva — diz a escritora de 53 anos por vídeo, de sua casa, em Paris. — Só assim consegui construir uma relação de igualdade com elas e não vê-las mais como vítimas de um crime terrível, mas de algo que poderia ter acontecido comigo. Dos 17 aos 25 anos, Nathacha viveu um relacionamento com HC, um homem três décadas mais velho, que também a perseguiu de carro pela noite quando ela tentou escapar. Em “Noite no coração”, ela entrelaça a própria história à de Emma e Chahinez para investigar os mecanismos de dominação que muitas vezes culminam em feminicídios. O livro foi finalista dos principais prêmios literários franceses no ano passado e arrematou o Femina, restrito às escritoras mulheres. A edição brasileira será lançada na 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que este ano acontece entre 22 e 26 de julho e homenageia a poeta Orides Fontela. Nathacha é uma das convidadas do evento. Ela já leu Machado de Assis, Jorge Amado e Adriana Lisboa, mas nunca visitou a América Latina e espera que a viagem lhe permita conhecer um pouco a situação política do Brasil, onde 1.470 mulheres foram vítimas de feminicídio no ano passado. Rita Palmeira, curadora da Flip, afirma que a autora é “um dos maiores nomes da literatura contemporânea francófona” e seu último romance trata de “um tema incontornável também no Brasil de 2026: a violência contra a mulher”. ‘Uma angústia’ Nascida nas Ilhas Maurício, país localizado no Oceano Índico, a cerca de dois mil quilômetros da costa africana, Natacha vive na França desde 1998 e é autora de 13 títulos. Em 2025, foi lançado no Brasil seu romance mais conhecido, “Trópico da violência”, que acompanha dois adolescentes negros em bairro chamado de Gaza, a maior favela de Maiote, arquipélago francês próximo de Madagascar: Moïse, filho adotivo de uma enfermeira branca, e Bruce, o chefe da gangue local. O romance é narrado por cinco vozes, sendo duas delas póstumas. Depois de ouvir no rádio a notícia do assassinato de Chahinez Daoud, em maio de 2021, Nathacha não conseguiu dormir direito. Sentia uma pressão no tórax. “Não sei o que é, uma angústia, um medo, uma falta, uma tristeza, um animal, uma tarefa a cumprir. Não ignoro que preciso transformar esse peso em alguma coisa”, recorda a autora em “Noite do coração”, que nasceu precisamente desse incômodo. Num e-mail ao advogado da família de Chahinez, ela disse ter lido o que a imprensa escreveu sobre seu assassinato, mas que era “como romancista” que gostaria de “conhecê-la melhor”. E deu suas credenciais: “Trabalho há vários anos com o tema da violência, da dominação moral e física, do confinamento cultural.” Em “Noite do coração”, ela examina os discursos “que se sobrepõem à voz de uma mulher morta” e a abordagem muitas vezes “infantilizadora” da mídia, que reduz a vítima de uma “morte violenta, bárbara e humilhante” a “um ser vulnerável e frágil”. — Percebi que todos os feminicídios têm uma coisa em comum: o apagamento da mulher. O apagamento de seu corpo físico, é claro, mas também de sua existência espiritual, de sua alma, de tudo o que ela representou — diz a autora. Em certos casos, há inclusive tentativas de buscar explicações para os crimes. Chahinez, que tinha origem argelina, foi pintada como uma muçulmana que “usava véu mas queria usar legging e viver como uma mulher francesa” e acabou “morta pelo marido, que também era muçulmano, no meio da rua”. O marido de Emma, que foi assassinada em 2000, justificou seu crime acusando-a de adultério: “Ela me cansava, eu quis me livrar dela”, disse à imprensa. Por não ter antecedentes criminais, foi condenado a 12 anos de cadeia. A sentença do marido de Chahinez foi a prisão perpétua. Nathacha poderia ter tido o mesmo destino de Chahinez e sua prima Emma. Ela conheceu HC aos 17 anos. Tinha ganhado o concurso literário de um jornal das Ilhas Maurício e ele foi escalado para entrevistá-la. HC tinha jeito de poeta maldito e escondia mal seu ressentimento. Nathacha descreve o “esquema de conquista e domesticação” que ele, mesmo sendo muito mais velho e casado, botou em prática. Ele bajulava Nathacha, elogiava sua inteligência, seu talento com as palavras, até que começaram um relacionamento que a levou a romper com a família e passar três anos sem ver os pais. HC se revelou um homem ciumento, que se aproveitava de seu físico de boxeador para intimidar Nathacha. Certa noite, por achar que rapazes na rua estava flertando com ela, ele a enforcou. “Cuidado da próxima vez”, avisou, com uma “ternura inesperada”. Os interrogatórios (“ele me acusa de traí-lo com o mundo inteiro”) e a violência física e sexual se tornaram “uma maneira de viver”. Quando conseguiu se libertar e sair da casa de HC, Nathacha tinha 25 anos e pesava 38 quilos. — Eu olhava para a jovem que fui com muita severidade — afirma a escritora. — Ao contar essa história, aprendi a ser mais benevolente. Entendi que fui manipulada, reconheci a influência abusiva dele, o domínio que ele exercia sobre o meu corpo e o colapso íntimo que essa relação representou para mim. Vida de trabalhadores Nathacha descende de indianos que foram levados às Ilhas Maurício para substituir os escravizados nas plantações de cana-de-açúcar. Cresceu numa casa onde se falava inglês, francês e crioulo (os idiomas cotidianos do país) e línguas indianas, como hindi e télugo. Aprendeu a contar histórias com os avós, trabalhadores rurais analfabetos. Seus pais eram recém-chegados à classe média: ele era funcionário público e ela, professora. — Ter convivido com pessoas que trabalharam no campo do nascer ao pôr do sol, que não sabiam ler nem escrever, mas contavam histórias e esperavam um destino diferente para seus filhos, aguçou meu olhar para as relações de desigualdade — diz ela. — Minha tia era uma mulher muito determinada e moderna, que eu amava muito. Um dia, descobri que ela não sabia ler nem escrever. Perguntei ao meu pai por que ela não tinha ido à escola e ele me respondeu “porque ela era menina”, como se eu não fosse! Por alguma razão, eu achava que todas essas injustiças seriam resolvidas quando eu fosse adulta. Não foi assim e cabe a mim assumir minha parte da responsabilidade. Embora afirme que “Noite no coração” nasceu também de uma reflexão sobre “a posição do escritor em relação ao que acontece na sociedade”, Natacha não acredita que seja seu papel fazer justiça. Para ela, “a literatura não é o lugar da justiça, mas da justeza. Em francês, ela diz “justesse”, que remete à “mot juste”, a palavra justa, precisa, que Gustave Flaubert (1821-1880), autor de “Madame Bovary”, buscava obsessivamente: — Há outros profissionais encarregados de fazer justiça. A literatura é o lugar onde todos os seres humanos são colocados no mesmo nível, onde se dá visibilidade ao que permanecia nas sombras. A grande simplicidade do meu trabalho é colocar nossa condição humana à prova das palavras. É comum que, em eventos literários, mulheres se aproximem para contar à escritora histórias de violência vividas por elas ou por pessoas próximas: — Elas me contam essas histórias com muito pudor e dignidade, fazem perguntas precisas, às vezes me deixam um bilhete. Nunca há excessos. Todas elas mantêm a cabeça erguida. Eu também escrevi esse livro de cabeça erguida. Por mim mesma e também por Emma, por Chahinez e por tantas outras. Serviço: ‘Trópico da violência’ Autora: Nathacha Appanah. Tradutora: Lorena Figueiredo. Editora: Paris de Histórias. Páginas: 200. Preço: R$ 72,90. ‘Noite no coração’ Autora: Nathacha Appanah. Tradutora: Mariana Delfini. Editora: Bazar do Tempo. Páginas: 240. Preço: R$ 89.