Autora do livro de contos 'O ninho' (2023), vencedor dos prêmios Sesc, APCA e Jabuti, participará na Flip de mesa com a franco- mauriciana Nathacha Appanah 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A autora Bethânia Pires Amaro — Foto: Reprodução Instagram Ficções históricas se caracterizam principalmente por mostrar a influência de uma época, com suas decisões políticas e pensamentos correntes, na vida íntima de personagens. Nesse sentido, o lançamento “Ressalga”, novo livro de Bethânia Pires Amaro, acerta ao narrar a vida de três gerações de mulheres marginalizadas na Bahia entre os anos de 1951 e 1975. Apesar de ser um romance de estreia, a obra oferece maturidade de escrita, refletindo o livro anterior da autora, “O ninho” (Record, 2023), que venceu, na categoria de contos, os prêmios Sesc, APCA e Jabuti. E vale ficar de olho: Bethânia estará na Mesa 12 da Flip, no dia 24 de julho, às 17h, debatendo literatura com Nathacha Appanah e mediação de Gabriela Longman. Em “Ressalga”, a protagonista e narradora Florinha revisita seu diário e volta a Salvador para investigar o paradeiro da mãe, com quem perdeu contato na juventude e que suspeita ter se tornado a famosa mulher de roxo, personagem histórica real que vagou pelo Centro da capital baiana, em especial na Rua Chile, pedindo dinheiro por décadas. Amaro, que nasceu em Pernambuco e foi criada na Bahia, provavelmente escutou muitas histórias sobre essa mulher, que usava trajes roxos ou pretos, semelhantes aos de uma freira, além de um enorme crucifixo pendurado no pescoço. Sepultada como indigente, a mulher se tornou alvo de diversas lendas: diziam que tinha se apaixonado por um padre ou que era proprietária de um famoso bordel, que procurava por uma filha desaparecida ou que fora muito rica e perdera todo o dinheiro em jogos de azar — mitos que aparecem em vários pontos do enredo de “Ressalga”. A própria mulher de roxo costumava contar histórias sobre si, aumentando o imaginário popular ao redor dela. Sua existência acabou sendo representada em algumas obras de arte, como no filme “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”, do cineasta Glauber Rocha (1939-1981). Muitas versões No romance, enquanto investiga os anos finais da vida dessa figura mítica, Florinha nos conta também sobre a vida da avó e da mãe, ambas prostitutas, revelando uma infância e juventude cercada por mitos e pela presença de diversas pessoas que frequentavam os prostíbulos ou eram próximas da família. A convivência com esses indivíduos é transportada para a narração, constantemente entrecortada por uma polifonia de vozes expressando pontos de vista sobre sua família, de forma que às vezes o livro se torna um quebra-cabeças a ser montado pelo leitor e cujas peças são aquilo de que Florinha se lembra, o que os outros pensavam e o que a avó e a mãe contavam. Assim como o leitor, a protagonista parece estar construindo o seu ponto de vista sobre as circunstâncias históricas que cercaram as três gerações de mulheres, sem saber bem em qual versão acreditar. Capa de 'Ressalga' — Foto: Divulgação Sua avó Janaína, por exemplo, nasceu diante da presença de boitatás. Ainda que Florinha saiba se tratar apenas de fogos-fátuos, ela carrega uma aura mística em torno da avó, pois jura ter visto uma metamorfose durante uma inundação no Rio Paraguaçu: “Mergulhou e ao levantar já não era a minha avó, era outra Janaína, era Iara, era Oxum e Iemanjá; quando desapareceu no rio, eu vi, tenho certeza de que vi, o ondular de um gigantesco, magnífico rabo de peixe.” Esse misticismo também é conduzido para a mãe, Graça, uma mulher dada a contar histórias, que se assemelhava a uma Sherazade soteropolitana, e que chega a mudar de nome 37 vezes. Tal qual uma das lendas sobre a mulher de roxo, Graça funda um próspero cabaré, de nome Oitenta e Sete, e ali ela, sua filha e outras mulheres vivem os anos de chumbo da ditadura militar brasileira, convivendo com diversas autoridades da época. “Dentro daquelas paredes, operavam-se muitos dos encantamentos de minha mãe, a deixar um homem desnorteado, pois uma vez ali dentro se esquecia da digníssima esposa, da política nacional (...) esqueciam-se as perseguições”, escreve Florinha ainda relembrando sua juventude, expondo a rotina pesada de prostituição das mulheres na década de 1970 em Salvador e encaixando as peças das múltiplas histórias e vozes que guarda dentro de si. A tentativa de reconciliação com a memória de suas ancestrais é, portanto, um reconhecimento das poucas possibilidades de destinos que existiram para as mulheres de sua família na Bahia dos anos 1950 a 1970. * Bruna Meneguetti é jornalista
Crítica: Romance de estreia de Bethânia Pires Amaro, 'Ressalga' traça a trajetória de três gerações de mulheres batalhadoras
Autora do livro de contos 'O ninho' (2023), vencedor dos prêmios Sesc, APCA e Jabuti, participará na Flip de mesa com a franco- mauriciana Nathacha Appanah







