Herdeira do realismo mágico latino-americano, autora de 'A cabeça do santo' se preparar para ver seus romances virarem filme e enredo na Sapucaí 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A escritora Socorro Acioli: 'A vida me treinou lutar. Estou fazendo um trabalho mental para entender que posso relaxar' — Foto: Julia Mataruna RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 18/06/2026 - 18:36 Socorro Acioli celebra sucesso literário e casamento temático no Ceará Socorro Acioli, autora cearense de "A cabeça do santo", desfruta de seu sucesso literário e planeja um casamento no cenário de seu livro "Oração para desaparecer". Com romances que combinam realismo mágico e espiritualidade, suas obras ganharão adaptações para o cinema e destaque no Carnaval. Socorro compartilha sua trajetória de superação pessoal e profissional, enquanto comemora realizações na literatura e na vida pessoal. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Num café no Centro de São Paulo, numa tarde fria e barulhenta, Socorro Acioli conta, entre um cappuccino e outro, que finalmente saiu do “modo de sobrevivência”. “A vida me treinou lutar. Estou fazendo um trabalho mental para entender que posso relaxar”, explica a autora do best-seller “A cabeça do santo” (Companhia das Letras). Agora, nem a menopausa vai impedi-la de aproveitar a vida — aliás, discussões sobre mudanças hormonais lhe interessam tão pouco quanto a moda da autoficção. “Está acontecendo tanta coisa que já nem sei o que é menopausa e o que não é. Tenho viajado muito e, às vezes, acho que é só cansaço mesmo. Não quero encontrar mais noia para a minha cabeça, não”, diz a escritora de 51 anos. Socorro é hoje uma das escritoras mais populares do Brasil. Mês passado, a Companhia das Letras anunciou que, juntos, os romances da cearense “A cabeça do santo” (2014) e “Oração para desaparecer” (2023) e o infantojuventil “A bailarina fantasma” (2015) passaram a marca de 500 mil cópias. A escritora publica regularmente desde 2001: além dos romances, é autora de perfis biográficos de Frei Tito e Rachel de Queiroz e 18 livros infantis (“Ela tem olhos de céu” venceu o Prêmio Jabuti, em 2013). A escritora Socorro Acioli veste N10 — Foto: Julia Mataruna No entanto, foi nos últimos três anos que ela virou uma celebridade da literatura. Em 2023, tornou-se a autora mais vendida da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) e deu uma entrevista ao Fantástico, da TV Globo, na qual falou pela primeira vez sobre o suicídio do pai, quando tinha três anos, e da esquizofrenia da mãe. Ela também acredita que a propaganda de Itamar Vieira Junior a ajudou a se tornar mais conhecida. “A cabeça do santo” é um dos livros que o autor de “Torto arado”, que bateu a raríssima marca de 1 milhão de exemplares, indica em falas públicas. “Não acho que tem a ver comigo, não”, rebate Itamar, por telefone. “Socorro é uma escritora de imenso talento e criatividade, cujas histórias conversam com um Brasil que está tentando se encontrar e tem se voltado para suas origens.” Os dois se aproximaram na pandemia. Os conselhos da cearense, mais experiente, ajudaram o baiano, que era funcionário público e virou best-seller, a navegar no mundo literário. Itamar a descreve como “generosa”, “solidária” e “divertida”. A amizade está prestes a passar por uma prova. Em 2027, eles serão “rivais” na Sapucaí: “Torto arado” será enredo da Unidos de Vila Isabel e “A cabeça do santo”, da Unidos da Tijuca. Lucas Milato, carnavalesco da escola, afirma que os preparativos para levar a obra de Socorro ao sambódromo estão “a todo vapor”. “Estamos muito empolgados em contar uma história que é fantástica em todos os sentidos”, diz ele. Ex-aluno dos cursos de escrita criativa que Socorro ofereceu de 2009 a 2023, Stênio Gardel elogia a habilidade de tirar beleza dos detalhes. “Em ‘A cabeça do santo’, ela descreve os pés do protagonista como ‘dois animais dentados e imundos’ (ele andava há dias sem sapato)”, diz o autor de “A palavra que resta”: “Admiro a sua coragem, na literatura e na vida”. A escritora Socorro Acioli veste calça e camisa Dona Coisa — Foto: Julia Mataruna Socorro é apontada como herdeira do realismo mágico latino-americano — foi aluna da oficina Como Contar um Conto, que o Nobel de Literatura colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014) dava em Cuba. Em “A cabeça do santo”, Samuel sai de Juazeiro do Norte para a cidade de Candeia atrás do pai que nunca conheceu e se abriga numa gigantesca cabeça de uma estátua de Santo Antônio. Lá dentro, Samuel ouve as rezas das mulheres ansiosas para casar. E a cabeça existe mesmo: em Caridade, a 95 quilômetros de Fortaleza. Já “Oração para desaparecer”, em que uma brasileira desmemoriada é desenterrada em Portugal, nasceu do fascínio da escritora por uma igreja em Almofala, no litoral cearense, que passou quase meio século, de 1897 a 1943, soterrada. Contam os antigos (e Socorro perambulou pela cidade a ouvi-los) que o que era enterrado naquela areia aparecia em Portugal. Em abril do ano que vem, a escritora e seu namorado, o professor de biologia Júlio Saraiva, se casam na igreja da cidade, numa cerimônia restrita à família. “A igreja de Almofala mudou a minha vida. E foi durante a escrita do ‘Oração para desaparecer’ que comecei o namoro com Júlio, em 2020. Eu nunca pensei em casar na igreja antes, mas depois disso tudo eu sonho com esse dia, com todos os detalhes da cerimônia. Tenho a sensação de que, na hora do casamento, eu posso olhar para o lado e ver os personagens por ali. Não duvido de nada”. 'Delírio San Pedro', o novo romance da escritora Socorro Acioli, deve sair no ano que vem — Foto: Julia Mataruna Tanto “A cabeça do santo” como “Oração para desaparecer” vão virar filme. O primeiro tem Antônio Pitanga e Bruno Gagliasso no elenco (“eu não podia contar isso, mas agora já foi”, diz Socorro). E Alice Carvalho vai interpretar a protagonista de “Oração para desaparecer”. Os romances de Socorro se passam num Brasil rural, parado no tempo e de muita fé. “Coloco a religião nos livros porque ela me dá muitas possibilidades de desdobrar o enredo. E também porque eu não consigo enxergar a vida sem a perspectiva da espiritualidade”, diz a escritora, que é candomblecista e tem uma tatuagem de Oxóssi no braço direito. Ela também sabe tirar tarô e anda sempre com um baralho na bolsa — por razões literárias. Os personagens de seu próximo romance, “Delírio San Pedro”, são inspirados nas cartas. “É influência de Italo Calvino”, explica. Mês que vem, Socorro lança “Amar é inadiável” (Planeta), seleta de crônicas publicadas nos jornais O Povo e Diário do Nordeste. O livro é dedicado ao pai dela: “Manoel Calixto de Alencar, que sonhava em ser cronista”. “Quando me reaproximei da família do meu pai, uma tia me deu uma caixa com os documentos dele e lá tinha carteirinha de jornalista para entrar em estádio. Ele trabalhava nos Correios, mas me contaram que o sonho dele era ser cronista esportivo. A partir daí, fui refazendo a história do meu pai na minha cabeça e me toquei que, sem perceber, tinha dado o nome dele para o pai de Samuel, de ‘A cabeça do santo’”, conta a autora. A escritora Socorro Acioli veste camisa e calça N10 e tênis Mr Cat — Foto: Julia Mataruna Na adolescência, ela confidenciou que o pai se matara a uma amiga, que depois espalhou à escola toda que suicídio era genético e que Socorro certamente teria o mesmo fim. Depois da entrevista ao Fantástico, ela recebeu muitas mensagens de pessoas que tinham histórias parecidas e até mais tristes. “É por isso que eu não tenho vontade de escrever autoficção. Prefiro pensar a dor coletivamente, porque a minha não é maior que a dos outros. Acompanhando a doença da minha mãe, vi muita gente sofrendo desassistida. Eu estudava numa escola boa, tive várias coisas que me salvaram”, afirma. Socorro foi criada pela avó, Sebastiana Edite, bordadeira. As duas eram “chapas”. Todo domingo, ela ia buscar “duas garrafas de Brahma” para a avó e ganhava um picolé como pagamento. Adorava ouvir as histórias que Dona Sebastiana contava, como de sua bisavó, que, aos 13 anos ameaçara fugir com o bando de Lampião. Socorro tem duas filhas do primeiro casamento: Beatriz, de 23 anos, e Camila, de 10 anos. Aprende muito com elas. “Esses dias eu falei que fulano era um gato e Beatriz me disse que não se fala mais isso. Perguntei como é que se elogia homem bonito. Ela me olhou com cara de desprezo e disse: ‘Não elogia’”, conta a escritora, que vive em Fortaleza com as filhas na mesma rua em que o namorado, Júlio, vive com os três filhos: dois gêmeos de 16 anos e outro menino de sete. Depois do casamento, vão continuar vivendo separados. Socorro está erguendo uma casa para os sete na Praia da Taíba, no Ceará. Dá para ver o projeto e acompanhar o andamento das obras no perfil @casa_milagrito, no Instagram. Ela também comprou uma sala comercial no Centro de Fortaleza, perto do Mercado Central, onde a avó vendia seus bordados e da agência dos Correios onde o pai trabalhava. E um apartamento de 40 metros quadrados no Copan, a obra-prima de Oscar Niemeyer, em São Paulo. “Paguei tudo com dinheiro de livro. Acho incrível poder dizer isso”, celebra Socorro, que, no ano passado, fez uma cirurgia bariátrica. Os exames estavam ruins, ela tinha dores no pé, cansava-se facilmente e não estava dando conta da rotina imposta pelo sucesso. “Juntei o dinheiro e fiz a cirurgia. Se precisar de outra, eu faço. Tudo o que for para minha saúde eu vou fazer. Só não quero mexer no meu rosto”, diz a escritora, que saiu do manequim 54 para o 44 em seis meses. Dos investimentos imobiliários aos cuidados com a saúde, tudo, diz ela, é pensado para aproveitar mais a vida. “Esse momento vai passar. Estou tranquila com isso. Quantos escritores estouraram nos últimos 15 anos, venderam um monte e desapareceram? Não acho que eu vá desaparecer, mas vão surgir outros fenômenos e eu vou ficar aqui no Copan com meus livros”, diz a autora. No dia seguinte à entrevista, Socorro mandou um recado à reportagem: “O algoritmo (do Instagram) está mandando matéria sobre menopausa sem parar desde ontem. Algoritmo fanfarrão”. E, de brincadeira, sugeriu um título para o perfil: “MenopAUGE: realizar sonhos aos 50 anos”. Beleza: Marcela Vieira. Assistente de fotografia: Anna Clara Carvalho. Tratamento de imagem: Victor Wagner. Produção executiva: Kariny Grativol.
Socorro Acioli: cearense aproveita estrelado literário, sai do 'modo sobrevivência' e planeja casamento em cenário de um de seus best-sellers
Herdeira do realismo mágico latino-americano, autora de 'A cabeça do santo' se preparar para ver seus romances virarem filme e enredo na Sapucaí







