Que ninguém se iluda: os direitos das mulheres ainda estão a perigo. "Cada vez mais temos que estar vigilantes, porque a cada avanço existe um recuo, e às vezes o recuo é maior do que o avanço", afirmou a escritora franco-mauriciana Nathacha Appanah nesta sexta-feira (24), na Flip.

"Se pensávamos que alguns direitos já estavam adquiridos, como votar ou decidir sobre o próprio corpo, vêm as ondas contemporâneas antissufragistas e antiaborto mostrar que a realidade é bem menos otimista para o movimento feminista."

Ao seu lado, a brasileira Bethânia Pires Amaro reforçou o alerta citando Simone de Beauvoir: basta uma crise política, econômica ou social para que os direitos das mulheres voltem a ser colocados em xeque. A conversa reuniu duas autoras cujos romances percorrem diferentes formas de violência contra as mulheres.

Appanah parte de dois feminicídios e uma tentativa, contra ela própria, para refletir sobre poder masculino em "Noite no Coração", vitorioso em premiações francesas de relevo, como Femina e Goncourt des Lycéens. "Ressalga", de Bethânia, nasceu de um projeto interrompido de Jorge Amado.

Em 1966, a pedido do baiano, o fotógrafo Flávio Damm registrou mulheres que trabalhavam na prostituição em Salvador para ilustrar "Mulher-Dama", livro de Amado que sucumbiu à repressão da ditadura militar. Décadas depois, essas imagens serviram de ponto de partida para uma ficção sobre três gerações de mulheres na Bahia.