PUBLICIDADE Obra autobiográfica de ativista argentina narra seus primeiros anos de vida, riscos em reviravoltas e choques emocionais, que seriam base para luta em defesa dos marginalizados 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Pessoas andam sob uma bandeira do movimento LGBTQIA+ — Foto: Unsplash RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você A obra reúne memórias epistolares da infância de Cecilia Gentili na Argentina. O apoio incondicional de sua avó foi fundamental para a construção de sua identidade. Radicada nos Estados Unidos, a ativista argentina destacou-se na defesa dos direitos trans. Ela também brilhou como atriz na aclamada série de televisão "Pose". Diante de uma realidade hostil, Gentili assumiu o protagonismo de sua própria história. O livro, lançado pela editora DBA, recebeu cotação ótima do crítico. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Em um dos oito capítulos epistolares que compõem o livro “Faltas”, estamos na pequena cidade de Galvéz, no norte da Argentina. A jovem Cecilia Gentili, então uma criança queer criada como menino, acompanha sua avó até o culto em uma Igreja Batista. Há uma piscina construída dentro da igreja e adultos formam uma longa fila para se batizar. Logo que chegam, um dos membros puxa a avó de Cecilia de lado e diz que o garoto não poderia usar brinco ali dentro. A avó não concorda. Diz que Deus queria a felicidade de Cecilia. E o canal para essa felicidade eram os brincos. Ao fim do culto, é o pastor que se aproxima da avó de Cecilia e promove uma explicação teológica diferente: seria o diabo, e não Deus, que estaria permitindo o uso do brinco pelo “menino”. Porque, defendia o pastor, Deus não permitiria coisas que provocam sofrimento. A mulher levantou a voz e encarou o pastor: “Se Deus só pede coisas que não trazem sofrimento”, ela disse, “então por que ele levou meu filho e me fez sofrer como estou sofrendo agora?” O pastor tentou argumentar, dizendo que o Senhor colhe as flores mais belas para junto de si, despertando a fúria da avó: “Deus vive em todos os lugares, e falarei com Ele em casa.” Eles nunca mais voltaram àquele templo. “Aquilo foi o fim da igreja”, escreve Cecilia, na carta endereçada à avó, “mas não do seu relacionamento com Deus. Você continuou lendo a Bíblia para mim todas as noites até eu adormecer usando quase todas as suas joias.” Ao se deparar com as cartas que compõem “Faltas”, o leitor brasileiro poderá conhecer as origens da personalidade destemida e corajosa da mulher trans que se tornaria celebridade internacional. Humor, crítica e sensibilidade Cecilia Gentili (1972-2024) foi uma ativista, escritora, atriz e performer argentina radicada nos Estados Unidos, reconhecida por sua atuação incansável na defesa dos direitos das pessoas trans, especialmente aquelas em situação de maior vulnerabilidade social. Com uma trajetória marcada pela militância direta e pelo uso da arte como ferramenta política, ela construiu uma voz que combinava humor, crítica e sensibilidade para denunciar desigualdades e violências estruturais. Desenvolveu ações ligadas à saúde e aos direitos LGBTQIA+ e também se destacou no teatro e na televisão. A defesa dos direitos dos marginalizados tem a ver com quem Cecilia foi ao longo da vida. Durante seus 52 anos, foi imigrante ilegal nos Estados Unidos, trabalhadora do sexo, atriz na cultuada série “Pose”, que foi ao ar entre 2018 e 2021, e reuniu o maior elenco trans da história da televisão. Para além dos abusos sexuais que sofrera de um vizinho repetidas vezes desde os 6 anos de idade, Cecilia dá tom literário a episódios marcantes da infância e adolescência, em especial a sua relação com a avó, que serviu de apoio emocional e estruturante da sua personalidade. Na primeira das cartas, conta um episódio no qual seu irmão disse que ela tinha sido abandonada na mata por extraterrestres, enrolada em um cobertor. “Mami decidiu te levar com a gente, e é só por isso que você mora com a gente”, explica o irmão. “Se ele estivesse falando a verdade isso explicaria tanta coisa”, escreve Cecilia. “Sempre senti como se não fizesse parte daquela família.” Ela compartilha a história com a avó. “Eu sou um extraterrestre (...) Sou de um planeta onde meninas como eu têm pintinho! (...) A senhora é única para quem posso contar isso.” “Eu te amo”, diz a avó. “Quer que a gente espere por eles hoje à noite?” Cecilia descobriu desde cedo que era uma sobrevivente em um mundo hostil. “Ninguém, eu aprendi, vai escrever um papel de protagonista para mim. O único jeito de conseguir ser a estrela de uma peça (...) é se eu mesma escrevê-la.” Ao longo da vida, ela se tornou não só uma corajosa e alegre protagonista, mas uma inspiração a todos aqueles que defendem a dignidade das minorias, cotidianas exterminadas e perseguidas, tornando-se, ela própria, uma figura de acolhimento e referência para muitos. Cecilia Gentili, definitivamente, não era deste planeta. * Marcos Vinícius Almeida é mestre em Literatura e Crítica Literária e autor de “Pesadelo tropical” (Aboio, 2023) Serviço: "Faltas" Autor: Cecilia Gentili. Tradução: Carolina Kuhn Facchin. Editora: DBA. Páginas: 216. Preço: R$ 82,90. Cotação: Ótimo.