Romance mostra como ideias inovadoras conseguem se infiltrar pelas brechas da escuridão militar e dos tabus de uma sociedade resistente a mudanças 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Soldados atacam palácio do governo em Santiago, durante golpe de Estado liderado por Augusto Pinochet em setembro de 1973 — Foto: AFP/Arquivo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você A trama acompanha os jovens Tomás e Clemente em Santiago, no ano de 1986. Eles buscam refúgio na arte para resistir à opressão militar. Fanzines clandestinos, fitas cassete e o cinema de Hollywood servem como ferramentas de contestação. O autor destaca o papel libertador da cultura pop na época. Inspirado por uma cena real no metrô chileno, o romance autobiográfico de Alberto Fuguet chega agora traduzido ao Brasil pela editora Tusquets. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O escritor chileno Alberto Fuguet, certa vez, fotografou discretamente dois garotos que compartilhavam fones de ouvido, durante uma viagem de metrô em Santiago. O que hoje é uma cena comum seria improvável e até condenável há 40 anos, especialmente porque o Chile vivia sob uma rígida ditadura militar. Foi o que pensou o autor que, inspirado pelos dois rapazes, escreveu seu romance mais autobiográfico, “Certos garotos”, lançado em 2024 e agora traduzido para o português. A trama se passa na capital chilena em 1986, durante a ditadura do general Augusto Pinochet, que impôs toque de recolher além de disseminar uma violência civil de todos os tipos, com repressão, censura, queima de livros em praça pública, exílio de opositores políticos e milhares de desaparecidos e mortos pelo regime. Uma América Latina que já se encontrava em situação crítica. A válvula de escape para certa parcela da juventude, a que não abraçava o regime de exceção, estava nas festas que avançavam pela madrugada. A subversão pop. “Música, literatura, arte e cinema foram uma força democrática e libertadora que as ditaduras não conseguiram enxergar. É estranho que as tenham aceitado, que não as tenham censurado. A ideia de que a música pop era descartável e sem importância é fascinante”, escreve Fuguet, que retrata a realidade da sua própria juventude ao mesmo tempo em que utiliza a ficção para criar o que ela poderia ter sido. Se a sombra de Pinochet encobre os desejos de liberdade, o contraponto aparece nas festas, no cotidiano, nos segredos sexuais, pois, enquanto a censura mira intelectuais de esquerda, também ignora Madonna e a MTV. ‘O século dos imbecis’, de Valter Hugo Mãe Entre riso e reflexão, Valter Hugo Mãe investiga contradições da vida e questiona valores que podem nos salvar em tempos de excessos, intolerância e desorientação. Com prosa lírica e singular, transforma o absurdo em beleza e faz desta história uma reflexão sarcástica, divertida e profundamente humana sobre quem somos. Foto: Divulgação ‘Queima o velho!’, de Luís Pimentel A obra reúne narrativas curtas que flagram perversidades do cotidiano e a violência que, de tão humana, se revela banal, como a violência do afeto. Assim, os contos da nova coletânea do autor revelam “a cidade real, que sangra nas calçadas e apodrece nas marquises, mas resiste nos botequins”, como diz a apresentação. Foto: Divulgação ‘Os que amam, odeiam’, de Silvina Ocampo e Adolfo Bioy Casares Escrito em pouco mais de um mês em Mar del Plata, no verão de 1946, romance gira em torno de médico homeopata buscando descanso num hotel isolado. Mas ele acaba envolvido numa trama de vingança ligada a envenenamento e desaparecimento. Único livro escrito por Bioy Casares com a mulher Ocampo, combina mistério e ironia. Foto: Divulgação ‘Espaço aéreo’, de Claudia Cavalcanti Finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, autora apresenta a breve e bem-humorada história de Suzana Molinos, jornalista que, num avião, lê reportagem sobre os 10 anos da queda do voo AF447, entre Rio e Paris, em 2009. Na leitura, descobre que sua vida estava mais intrincada com o acidente do que podia imaginar. Foto: Divulgação ‘Absurdo coração’, de Tanussi Cardoso Com esta nova coletânea, Tanussi Cardoso, autor de 16 títulos (três deles editados no exterior), comemora oito décadas de vida. Seus novos poemas nascem a partir da reflexão sobre as inevitáveis consequências da passagem do tempo, muitas delas relacionadas a perdas físicas e afetivas. Foto: Divulgação ‘Parentela fascista’ na ditadura Entre diversos personagens, a atenção do romance se concentra nos jovens Tomás Mena e Clemente Fabres. O primeiro acaba de entrar na faculdade de Letras, fato que o afastará de uma “parentela fascista que admira o Exército (sempre vencedor, jamais vencido) e que lhe provoca uma profunda vergonha que o deixa paralisado e rendido”. Já Clemente cursa o último ano de Jornalismo e pretende voltar à Inglaterra, onde morou parte da vida, longe de Santiago, onde “tudo é repressão”. Autor do fanzine “ropa/americana”, sobre música, filmes e livros e que circula com sucesso entre livrarias e lojas de discos, ele tem uma beleza perturbadora, como a de Ian Curtis, vocalista do Joy Division, mas mais estilizado. Dois jovens que lutam diariamente para subverter a opressão, descobrir novas sensibilidades estéticas e abrir as portas para o amor. Subversão com ‘Rocky IV’ e The Cure Fuguet recria com habilidade o clima de desconfiança que pairava entre os jovens. “Berlim nos anos 30 era mais subversiva do que Santiago nos anos 80”, diz um personagem. Em contraponto, o escritor valoriza pequenas atitudes, como ler ou se trancar em casa, apresentadas como atos de resistência. Curiosamente, o livro evita colocar Augusto Pinochet, ditador entre 1973 e 1990, no centro da narrativa para apostar na preocupação de seus personagens com a cultura popular, o rádio e a arte. O escritor chileno constrói um universo narrativo e visual em que os detalhes recompõem os hábitos daquela época, algo inimaginável na rotina dos jovens de hoje — a subversão circulava em fanzines clandestinos reproduzidos em mimeógrafos; nos cinemas, onde brilhavam filmes hollywoodianos como “A hora do espanto” e “Rocky IV”; na divulgação de notícias como privilégio de jornais impressos como El Mercurio e La Nación; e, para escutar suas músicas, os jovens rodavam fitas cassetes em walkmans com trilha sonora variada, de New Order e The Lotus Eater a Echo & The Bunnymen e The Cure. No romance, existe uma estação de rádio fictícia, Eclipse, comandada por um irônico e misterioso apresentador, Neón, para quem o pop é mais atuante que o amor na promoção da união, o que comprova a tese de Fuguet de que, sem música, a vida dos personagens seria mais difícil. “Não se pode escrever sem lembrar”, diz Clemente, alter ego do autor que se infiltra pelas brechas da escuridão militar e dos tabus familiares de uma sociedade conservadora e resistente à mudança. Com seu romance, Fuguet comprova que, mesmo diante da opressão, não há problema em ser fã de Cindy Lauper e Madonna, ou gostar tanto de Spielberg como da Nouvelle Vague. Clemente e Tomás são homens à frente de seu tempo, pois, quando tudo parece estar contra, eles se recusam a ser como todos. Ubiratan Brasil é jornalista Serviço ‘Certos garotos’ Autor: Alberto Fuguet. Tradução: Sandra Martha Dolinksy. Editora: Tusquets. Páginas: 432. Preço: R$ 86,90. Cotação: Ótimo.