Romance de autor gaúcho costura três tramas que convergem para uma ilha, trafegando entre o real e o imaginário Costas da estátua de Hércules em Florença, na Itália — Foto: Unsplash RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você Ambientado em um farol isolado no extremo sul do país, o romance acompanha três militares sob forte tensão psicológica. A convivência forçada expõe os limites de suas sanidades. A obra investiga as complexidades e os sismos íntimos da masculinidade no fim do século XX. O autor coloca em xeque as perdas decorrentes de uma ética social rígida. Embora elogie a atmosfera elegante e a estrutura temporal fragmentada, a crítica aponta que o excesso de explicações no final enfraquece o mistério da trama. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO No extremo sul do Brasil, três militares tomam conta de um farol. Estão em um lugar inóspito, onde o vento e a areia castigam a paisagem, e o isolamento cria uma pátina de insanidade que pouco a pouco parece contaminá-los. É a partir desses filtros — certo limite entre real e imaginado e a alta voltagem masculina — que o gaúcho Leonardo Brasiliense constrói “Outras guerras”. Povoado por um trio de protagonistas sempre mediados pela tensão, o romance depende muito da atmosfera construída, o que implica um duplo aspecto. Se por um lado a aridez em capítulos curtos convida a um ritmo bem equilibrado entre agilidade e contemplação, por outro parece constituir uma camisa de força ao redor de Ariel, Agostinho e Skawinski. Os dois primeiros, poderíamos dizer, funcionam como polos opostos nas quase 130 páginas — Ariel é jovem, está naquele ambiente pela primeira vez, não fuma, não bebe e é umbandista; Agostinho, carrancudo, sempre retorna à fila de voluntários para servir no farol. Resta a Skawinski existir como meio do caminho entre os companheiros. De todas as três tramas que se encontram à beira do mar, a do Polaco talvez seja a mais bem-sucedida. Tanto ele quanto Agostinho, de quem é amigo fora do expediente, se veem orbitando mulheres de cuja alçada não conseguem escapar. Mas enquanto Agostinho tem sua rudeza contraposta a um suposto ato terrível cometido enquanto estava alcoolizado, o que o motiva a sempre voltar ao farol para “pagar”, Skawinski está de fato enredado nas armadilhas do desejo pela meia-irmã. É algo irônico, portanto, que diante de tamanha implosão das estruturas, aqui representada pela família, seja ele o fiel da balança. Como resultado, é de sua perspectiva que Brasiliense abre as brechas na aridez. A cena em que Skawinski criança vê a irmã sumir e reaparecer em meio aos lençóis no varal instaura uma dinâmica suave, diferente daquela em que Ariel observa as coxas da mulher que vai parar no farol com o namorado. Ao inserir pequenas franjas de ternura no texto, “Outras guerras” revalora o próprio peso enquanto aponta que há algo digno de nota ocorrendo no subterrâneo desses homens, sismos íntimos que convergem para o modo como suas masculinidades — e, consequentemente, suas formas de estar no mundo — foram erigidas. ‘Zen Ciclismo’, de Juan Carlos Kreimer Transitando entre ensaio, relato e reflexão, livro apresenta o ciclismo como atividade que, além de benefícios para a saúde, possibilita uma experiência existencial. O livro traça um panorama do veículo, desde os desenhos de Leonardo da Vinci até modelos contemporâneos, com bicicletas elétricas, dobráveis e de corrida. Foto: Divulgação ‘Onde o vento faz a curva’, de Estelle-Sarah Bulle Com prosa fluida e romanesca, autora esboça retrato sensível de uma geração de antilhanos que se reinventa na fronteira entre dois mundos. O romance ganhou os prêmios Stanislas, Carbet e Eugène Dabit em 2018. Noite de autógrafos será no dia 5, às 19h, na Livraria da Travessa de Botafogo (R. Voluntários da Pátria, 97). Foto: Divulgação ‘Memorial do inverno’, de Roberto Pompeu de Toledo A vida de um recém-viúvo aos 80 anos pode ser repleta de dissabores, mas também de descobertas, sobretudo pela literatura. Na tênue fronteira entre reflexão autobiográfica e ficção do cotidiano, este memorial do jornalista, autor de dois livros sobre a História de São Paulo, homenageia um grande amor. Foto: Divulgação ‘Uma moça nada comportada’, de Sophie Carquain e Olivier Grojnowski A biografia em quadrinhos acompanha a trajetória de uma jovem apaixonada pela literatura e pelo conhecimento — em um meio e numa época em que não é nada fácil ser uma mulher livre. Simone de Beauvoir, se tornaria um ícone do feminismo e uma das intelectuais mais brilhantes do século XX, autora de “O segundo sexo”. Foto: Divulgação ‘Uma mente borbulhante’, de Renata Formoso e Noah Faria Escrita por uma criança de 7 anos com ajuda da mãe, história convida leitores a conhecer o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e a neurodiversidade. Noah descreve seu dia a dia e descobertas pelo mundo, revelando a experiência de um garotinho que aprende a compreender seus pensamentos acelerados. Foto: Divulgação Existência truncada Faz sentido, nesse país do fim do século XX, que Agostinho entre no mar como o emblema de um tipo masculino já antigo e desbotado. Ou que um pai proíba que a filha, viajante, retorne grávida para casa. Em última instância, em maior ou menor grau, cada homem é o tensionamento dos outros, acionando e contrabalançando suas forças conforme a necessidade. Nos diversos níveis das relações com mulheres, passando pelas consequências de um desaparecimento, o que Brasiliense coloca em jogo é uma ética masculina, um modo de viver em sociedade que carreia consigo uma miríade de perdas e danos que nem todos estão dispostos a suportar. Nesse sentido, a existência truncada a que os três protagonistas estão submetidos se vê refletida na linha do tempo partida. É pelas idas e vindas que aos poucos conseguimos montar o mosaico que desvela algo muito próximo da tragédia pessoal, uma caminhada curta ao limite do abismo de suas diversas condições masculinas. Nos melhores momentos, “Outras guerras” lembra a sobriedade elegante de “Roupas sujas”, romance de Brasiliense publicado em 2017, embora em voltagem menor, contaminada por certa imposição de fantasmagoria ausente nos irregulares “Peixe estranho” e “Eu vou matar Maximillian Sheldon”. É pena, contudo, que o esforço da narrativa vagarosa resulte em um excesso de elucidações, diminuindo a força das ausências construídas. Ao passo que a trama de Ariel mantém a suspensão coerente, os últimos capítulos acabam por solapar a dimensão que Clarice Lispector parece convocar na epígrafe, e o resultado das respostas, luz excessiva, mascara o que vinha sendo uma boa dinâmica entre claro e escuro. Quando tudo está dito, então, só resta ao leitor o pouco trabalho de concatenar as informações, em lugar do que era (bem) exigido — montar e desmontar o mosaico dessas três figuras que vão embora como areia no vento. * Mateus Baldi é escritora e jornalista. Autora de “Os anos de vidro” (Nós, prêmio APCA 2025), é mestre em Letras pela PUC-Rio Serviço: "Outras guerras" Autor: Leonardo Brasiliense. Editora: Companhia das Letras. Páginas: 136. Preço: R$ 89,90. Cotação: Bom.
Crítica de livro: 'Outras guerras', de Leonardo Brasiliense, põe em jogo a 'ética masculina' predominante
Romance de autor gaúcho costura três tramas que convergem para uma ilha, trafegando entre o real e o imaginário














