Escritor mineiro lança seu romance mais ambicioso, entre ficção especulativa e fatos históricos, em que denuncia heranças coloniais 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Vista aérea da Rodovia Transamazônica, ponto de partida para romance de Bruno Ribeiro — Foto: Brenno Carvalho RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você O escritor mineiro Bruno Ribeiro lança seu romance mais ambicioso. A obra utiliza o grotesco e o trágico para narrar a decadência de uma família negra. A trama acompanha a trajetória de Batista dos Santos Assumpção desde os anos 1970. O protagonista enfrenta desde prisões políticas até a perseguição de uma entidade maligna. O livro mistura ficção especulativa e fatos históricos para denunciar heranças coloniais. A narrativa se destaca pela habilidade em amarrar diferentes gêneros e referências. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Nos últimos anos, a literatura brasileira vem fazendo um movimento de privilegiar o tema em detrimento da forma. Muitos autores têm esvaziado a importância da estruturação da história, do engenho ficcional, em prol da ascensão do conteúdo como pretexto para colocar em voga comentários que estimulem o debate público. Quem se aventurar pelos livros de Bruno Ribeiro vai encontrar reflexões críticas sobre racismo, violência estrutural e desigualdade de classes, mas, acima de tudo, uma escrita inventiva, estritamente preocupada com a construção do enredo, em articular com penetração o texto para, só assim, repercutir suas questões sociais. Em “O dono e o mal”, o escritor mineiro, radicado na Paraíba e que venceu o prêmio Brasil em Prosa, do GLOBO, em 2015, chega ao seu trabalho mais ambicioso, explorando o grotesco, o tragicômico e o assombroso para retratar cinco décadas de desmoronamento de uma família preta e nordestina, acossada por um espírito maligno com sina de colonizador. ‘Extinção’, de Maria Reva Presença na Festa Literária de Paraty 2026, a ucraniana Maria Reva cresceu no Canadá. Ambientado em sua terra natal em 2022, romance acelerado e bem-humorado é um exercício sobre temas como guerra, devastação ambiental e de histórias para compreender o presente. Com ele, a autora foi semifinalista do Booker Prize 2025. Foto: Divulgação ‘Cavalo selvagem’, de Yukio Mishima Um dos mais radicais autores japoneses, Yukio Mishima (1925-1970) construiu um romance com elementos culturais do seu país. A narrativa se passa após uma tentativa de golpe de Estado ocorrida em 1932 e acompanha o jovem Isao Iinuma, que se mostra reativo ao contexto histórico que pairava sobre um Japão ocidentalizado. Foto: Divulgação ‘O outro lado do jogo’, de Adriano de Freixo Em tempos de Copa, esquecemos, mas futebol é coisa séria. Esta leitura crítica sobre o esporte, analisa-o como fenômeno político, social e cultural. A obra articula história, relações internacionais e ciência política para revelar os vínculos entre futebol, poder, identidades nacionais e disputas simbólicas. Foto: Divulgação ‘Aqueles que estão prestes a morrer’, de Harry Sidebottom O livro reconstrói mais de 700 anos sobre os gladiadores, que sustentaram espetáculos na Antiguidade. O historiador Harry Sidebottom nos conduz por um dia no Coliseu, reconstituindo a vida e o imaginário desses homens, desde o último jantar em que comiam como reis diante de uma multidão faminta até o duelo na arena. Foto: Divulgação ‘O ciclista’, de Dalton Trevisan Ganhador de prêmios da literatura em língua portuguesa, Trevisan se une a Odilon Moraes, mestre do desenho e das cores, em história de jovem que, disparando com sua bicicleta entre carros, ônibus e caminhões, supera obstáculos. Ou será que não? É a oportunidade de jovens descobrirem o estilo inconfundível do escritor. Foto: Divulgação A despeito de uma estrutura armada em recuos e saltos temporais, pela cronologia dos fatos, o romance tem início nos anos 1970, com Batista dos Santos Assumpção derrubando uma castanheira em meio às obras da Rodovia Transamazônica. O jovem preto, recém-migrado do Nordeste, faz parte de uma leva que foi buscar sustento no Norte selvagem. Num ambiente de tentações fáceis, porém, não demora para ser seduzido pelos eflúvios dos cabarés e, por conta de uma paixão bandida, acaba se metendo com o tráfico de drogas. Pego numa arapuca, é transportado para o temido presídio de Ilha Grande, no Estado do Rio, onde passa a ser visitado pelo fantasma do escritor Graciliano Ramos, que o instrui durante a convivência de tensão e troca com os presos políticos da ditadura militar. Batista, no entanto, trai a causa, ao ser cooptado pelo próprio presidente Médici como agente da repreensão para “assassinar em nome do Brasil Grande”. Crimes do passado Neste ponto, surge, pela primeira vez, a figura do O Inglês, uma entidade cujo comportamento insidioso parece inspirado no palhaço Pennywise, de “It”, romance de Stephen King. A aparição se encanta pelo “negro astuto, de sangue quente” e, a partir daí, irá perseguir e atazanar Batista e, futuramente, a família que ele constrói no Rio de Janeiro, ao se casar com Soledad. O casal tem três filhos e tenta prosperar no subúrbio carioca, mas logo os crimes do passado cobram suas dívidas, então fogem para a cidadezinha de Brejo do Livramento, na Paraíba, em busca de um recomeço. Ocorre que o lugar é controlado pela família Lucena Neumann, fundada com sangue nazista, que usa do império da cachaça para praticar um poder subjulgante, ariano, que incide de maneira contundente nos novos moradores. Esse é o começo original do livro, quando Valéria, filha de Batista, e Cássio, descendente dos poderosos brancos, descobrem uma gravidez acidental. Os Lucena Neumann pressionam a favor do aborto enquanto os Santos Assumpção querem negociar. O resultado da contenda irá repercutir no destino de todos, sobretudo em dois deslocamentos. Genival, o filho mais velho, que guarda um segredo doloroso, vai para São Paulo ser doutor, enquanto o irmão, Graciliano, que herdou a brutalidade de Batista, volta ao Rio e se torna um ardiloso traficante de drogas. Dez anos depois, alguns acontecimentos incontornáveis puxam de volta ambos para o núcleo familiar atormentado por um mal que não mais se contenta em apenas frequentar as sombras. A apresentação acima dá conta de um enredo multifacetado que se abastece da mistura de gêneros, referências e conceitos, contudo Ribeiro demonstra uma habilidade impressionante para amarrar as várias linhas narrativas, transformando-as numa trama envolvente, com diálogos afiados, ritmo vertiginoso e leitura magnética. A realidade histórica é, a todo momento, infiltrada pela ficção especulativa com o uso do simbolismo do monstro para compor os conflitos, as corrupções e os fundos psicológicos dos personagens atacados por horrores externos e os que advêm das relações interpessoais. São esses os mecanismos que dão força ao texto para expor suas denúncias sobre nossas heranças coloniais, deixando que o leitor absorva por si só o impacto de suas visões, sem precisar de um autor apontando para onde olhar. Sérgio Tavares é escritor e crítico literário Serviço ‘O dono e o mal’ Autor: Bruno Ribeiro. Editora: Alfaguara. Páginas: 336. Preço: R$ 79,99.
Crítica de livro: 'O dono e o mal', de Bruno Ribeiro, traz família nordestina perseguida por espírito colonizador
Escritor mineiro lança seu romance mais ambicioso, entre ficção especulativa e fatos históricos, em que denuncia heranças coloniais







