Romance de estreia do jornalista mostra país contemporâneo formado por lobistas mercenários e políticos venais Turistas assistem ao nascer do sol do Morro Dois Irmãos, acima da favela do Vidigal, um dia após operação policial que deixou 200 visitantes ilhados no local — Foto: Pablo Porciúncula/AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você O jornalista e editor Roberto Feith estreia na ficção com o livro "Filhos da mãe gentil". A obra satiriza a busca desenfreada por dinheiro no Brasil. Com humor ácido e tom jornalístico, a narrativa apresenta personagens caricatos. Eles revelam o fisiologismo e a falta de escrúpulos na sociedade contemporânea. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO No século passado, o escritor francês André Gide ganhou notoriedade ao dizer que não se faz boa literatura com bons sentimentos. “Nas artes, a utopia do bem tem de trazer em si os seus sabotadores e a justiça, os seus transgressores”, afirmou ele, que, anos depois, ganhou o apoio de Nelson Rodrigues — este, com seu humor ácido, engrandeceu o raciocínio ao afirmar que “não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos”. Ao estrear na literatura ficcional com “Filhos da mãe gentil”, o jornalista e editor carioca Roberto Feith sai de braço dado com Nelson ao construir uma divertida trama em que diversos personagens de caráter duvidoso ora se aliam ora se digladiam em busca da felicidade prometida pelo dinheiro — não pouco, mas muito. Aos 73 anos, Feith construiu uma sólida carreira no jornalismo televisivo e no mercado editorial, o que certamente lhe permitiu conhecer figuras que lhe inspiraram ou forneceram dados necessários para a criação de personagens. Foi correspondente da TV Globo em Paris e Londres entre 1977 e 1984. De volta ao Rio, atuou como editor-chefe do “Globo Repórter” até cometer a “loucura” de comprar o controle de uma pequena editora, a Objetiva, em 1993. Para desespero da concorrência, deu certo. Em 2005, associou-se ao grupo de mídia espanhol Prisa Santillana e, em 2014, vendeu sua participação na Objetiva para o Grupo Companhia das Letras/Random House. Atualmente, conduz o História Real, selo de não ficção da editora Intrínseca. Como em uma telenovela O envolvimento constante com notícias e fatos reflete-se no tom jornalístico de “Filhos da mãe gentil”, mas o humor britânico do autor pontua toda a narrativa, em que a ironia e o caos narrativo retratam o Brasil contemporâneo, a cultura da vantagem e as reviravoltas. A começar pelo título, brincadeira com um verso do “Hino Nacional” que interpreta o Brasil como pátria amorosa. A história basicamente gira em torno de Roberval Pompermayer, veterano repórter, outrora famoso, hoje no ocaso da carreira, que, para conseguir vender um terreno que herdou para deixar aos filhos, encara um desafio insólito: ajudar Wozinton, filho do poderoso bicheiro Elustondo Polozola, a se tornar uma celebridade. Como em uma telenovela, a história passa a se desdobrar em vários núcleos com personagens variados, boa parte com nomes esdrúxulos, como a apresentadora de TV Pergentina Penedo, o capanga Holywaldo Novaes, Denis Pollman, presidente do site Yoogle, e Flordenira, executiva com quem Roberval se une na criação de uma startup de inteligência artificial, empreendimento usado para alicerçar a carreira de celebridade de Wozinton. O que se descortina é uma sociedade ambiciosa, formada por lobistas mercenários e políticos venais. Feith torna o texto ainda mais divertido ao apresentar figuras que, mesmo secundárias, remetem a políticos amplamente conhecidos. É o caso de Esculápio Barbieri, condenado por tentativa de golpe de Estado, mas que ficou apenas alguns meses preso graças ao apoio de parlamentares aliados. Agressivo, distribui comentários pontuados por palavrões enquanto manipula cortes de picanha, costela e bife de chorizo. Frequentemente atribuída à escritora britânica Virginia Woolf, a frase “Quanto mais se envelhece, mais se gosta de indecência” ganha um novo e mais perverso significado no folhetim de Feith, que percebe, arguto, que a realidade deixou de ser verossímil há muito tempo. O escritor sabe que a atualidade pode ser um bom material para a literatura, mas não é essencial para o escritor, que deve usar sua imaginação. “Não somos valorizados quando retratamos o cotidiano”, comentou, certa vez, o argentino Juan Jose Saer. À medida que a história transcorre, as figuras vão se alternando no protagonismo, o que deixa clara a intenção de Feith de ter escrito um romance no qual o personagem principal não é uma pessoa, mas uma comunidade cujos habitantes compreendem que, na terra onde canta o sabiá, o caminho mais rápido para a fortuna passa pela política. É exemplar, aliás, a tese do ex-senador Herofilo de Lira, para quem, na política brasileira, uma carreira sem controvérsias e escândalos não era carreira que prestasse. Roberto Feith zomba com elegância de uma sociedade despudorada que aposta no desequilíbrio para sobreviver. Ubiratan Brasil é jornalista
Com humor britânico, Roberto Feith retrata o Brasil da beleza e do caos
Romance de estreia do jornalista mostra país contemporâneo formado por lobistas mercenários e políticos venais










