Radicada em Paris, a catarinense Andrea Eichenberger foi surpreendida com suspensão da individual 'Pequena enciclopédia sociopolítica ilustrada do Brasil contemporâneo' na unidade de Botafogo, na véspera da abertura 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Imagens de coxinha e mortadela: alimentos relacionados a grupos políticos inspiraram fotógrafa — Foto: Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você A obra de Andrea Eichenberger analisa a polarização brasileira recente. O trabalho reúne imagens e verbetes de símbolos cotidianos como a coxinha, a mortadela e a camisa da seleção. A exposição foi cancelada na véspera da abertura no Rio de Janeiro. A direção da instituição alegou necessidade de estrita neutralidade política para justificar a decisão repentina. Inviabilizada na galeria, a artista agora busca novos espaços no país. Ela também planeja publicar um livro bilíngue com apoio de uma fundação francesa ainda este ano. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Morando há 20 anos na França, a fotógrafa catarinense Andrea Eichenberger acompanhou, à distância, os eventos políticos e sociais ocorridos no Brasil desde 2013, que culminaram com duas eleições presidenciais de campos ideológicos antagônicos, de Jair Bolsonaro, em 2018, e Luiz Inácio Lula da Silva, em 2022. Nesse período, chamou a sua atenção como elementos do cotidiano passaram a ganhar conotação política, relacionados a um ou outro lado das correntes distintas. A partir de dois alimentos, a coxinha (relacionada a eleitores de perfil conservador) e a mortadela (associada ao campo progressista), Andrea levantou outros objetos, gestos e expressões identificados com a política brasileira, e convidou pesquisadores de diferentes áreas para escreverem sobre cada um deles. Do recorte entre 2013 e 2023, nasceu "Pequena enciclopédia sociopolítica ilustrada do Brasil contemporâneo", reunindo imagens e verbetes de itens como a camisa da Seleção Brasileira, o patinho de borracha (símbolos incorporados pela oposição de direita no impeachment de Dilma Rousseff), a panela (usada como percussão durante discursos televisivos de autoridades, por partidários de ambos os lados) ou o gesto de "arminha" (indentificado com o eleitorado de Jair Bolsonaro). Autorretrato de Andrea Eichenberger — Foto: Divulgação Montada em diferentes espaços, como o Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais de Covilhã, em Portugal, em 2023; o FestFoto, em Porto Alegre (RS), e no festival Photaumnales, em Noyon, na França (ambos em 2025), a mostra foi convidada a ocupar a Galeria Aliança Francesa, na unidade de Botafogo, Zona Sul do Rio, onde Andrea já havia feito a individual "O espaço da alteridade" (2021/2022). O que a fotógrafa não poderia imaginar é que, ela mesma, fosse protagonizar um episódio da polarização política brasileira: no Rio para a inauguração da exposição, no mês passado, Andrea foi surpreendida por uma mensagem de WhatsApp da direção da instituição informando o seu cancelamento, na véspera da abertura. — Foi me dito que, por ser uma associação de caráter cultural e de ensino, a Aliança Francesa não pode ter posicionamento político e por isso não podiam expôr o trabalho. Eu respeito a posição deles, mas por que deixaram para colocar isso com a exposição já montada? — questiona Andrea. — Houve um convite deles, há mais de um ano envieei um PDF detalhando todo o conteúdo do projeto, estava tudo aprovado. Foram muitas conversas, várias trocas de e-mail. Dá a impressão de que ninguém procurou saber do que se tratava a exposição. Fotos de Andrea Eichenberger — Foto: Divulgação A fotógrafa diz que foi firmado um contrato de três anos, para que o projeto circulasse por outras unidades da escola pelo Brasil. Mas que, ao visitar a montagem, a diretora geral das Alianças Francesas no Brasil, Nathalie Lacoste-Yebra, teria decidido pelo cancelamento, com a seguinte mensagem: "Ao analisar mais atentamente algumas das obras em exposição, percebo que elas contêm posicionamentos políticos explícitos sobre a vida política brasileira e nomes de figuras políticas. No entanto, a Aliança Francesa, como instituição e associação cultural brasileira, está vinculada a uma estrita neutralidade política, especialmente no contexto atual. Portanto, infelizmente, não poderemos prosseguir com a exposição nem com a inauguração prevista para amanhã". — Tentei até negociar uma saída, de colocar um aviso de que conteúdos eram de inteira responsabilidade dos autores, mas nem assim abriram a mostra. Me esforcei muito por essa exposição, deixei de fazer outros trabalhos para ficar em função disso. Viajei para o Rio, estava tudo montado — conta a fotógrafa. — Fizemos impressões maiores, que foram coladas nas paredes. No outro dia de manhã, uma pessoa próxima foi até a Aliança e disse que já estava tudo vazio. A notícia começou a repercutir nas redes sociais a partir de um post com o cartaz da exposição com a palavra "Anulada" em vermelho sobre a arte. — Passei mal por três dias com essa situação, não conseguia nem sair à rua. Não pude nem ver a exposição montada. Postei no meu perfil pessoal no Instagram, mas não consegui avisar a todas as pessoas que convidei. No dia da abertura, recebi vários telefonemas de pessoas que foram lá e se depararam com as portas fechadas e o cartaz com um "X" em cima, avisando que a exposição estava cancelada — relata. — Foi uma falta de respeito não só comigo, mas com todos os profissionais envolvidos na mostra e com o público. Fotos de Andrea Eichenberger — Foto: Divulgação Enquanto busca novos espaços para montar a mostra no Brasil, a fotógrafa planeja o lançamento de um livro, em edição bilíngue, Português-Francês: — Já tem um projeto impresso (boneca) do livro, com as imagens e os verbetes. Por enquanto tenho um apoio de uma fundação na França que paga parte da impressão, e vou batalhar nos próximos meses uma verba para publicar até o final do ano. Procurada, a Aliança Francesa não respondeu aos contatos da reportagem até o momento de sua publicação. O espaço segue aberto para manifestação.
Com mostra cancelada na Aliança Francesa por 'posicionamento político', fotógrafa planeja lançamento de livro
Radicada em Paris, a catarinense Andrea Eichenberger foi surpreendida com suspensão da individual 'Pequena enciclopédia sociopolítica ilustrada do Brasil contemporâneo' na unidade de Botafogo, na véspera da abertura






