Desde 2020, o concurso se dedica a descobrir e lapidar novos talentos literários fluminenses Talentos emergentes . Rafael, Renan, Jader e Luiz Henrique (atrás), Emily, Henrique e Taís com Bárbara (de preto): novas vozes ecoam em concurso de contos — Foto: Gabriel de Paiva RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 23/05/2026 - 19:23 Prêmio Rio de Contos: Celebrando a Diversidade Literária Fluminense O Prêmio Rio de Contos, iniciado em 2020, revela a diversidade das narrativas fluminenses, com temas que vão de carnaval e violência urbana à lenda de Bárbara dos Prazeres. O concurso destaca talentos de várias regiões do Rio, como Rafael Simeão e Jader Moraes, e promove a expressão de vozes pouco visibilizadas, sem premiação em dinheiro, mas com formação editorial rigorosa. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O enterro do sambista que acaba em gurufim, crimes que ganharam as manchetes enfileirados numa mesma história e um jovem que levanta suspeita de um policial apenas por ser negro e favelado. Os assuntos relacionados aqui poderiam, mas não foram retirados de jornal algum. Eles estão presentes na antologia que resultou de uma das edições do Prêmio Rio de Contos, realizado pela Mater Produções e pela Leia Brasil, em parceria com o Ministério da Cultura. Desde 2020, o concurso se dedica a descobrir e lapidar novos talentos literários fluminenses. Nesse período, uma análise dos mais de 1.500 trabalhos recebidos pelos organizadores do certame — cuja quarta edição tem inscrições abertas até o próximo dia 2 de junho — mostra como a novíssima geração de contistas vê o Rio e como o estado é retratado nas narrativas dos autores. Padrões repetidos Os idealizadores do projeto perceberam que alguns padrões se repetem. Entre os textos enviados pelos autores da capital predominam temas como carnaval e violência urbana, além do bairrismo explicitado algumas vezes no próprio título. Um exemplo é “Santa Clara às três horas da tarde”, de João Ricardo Campos, presente na primeira coletânea, lançada em 2022, e cuja ação transcorre na conhecida rua de Copacabana, na Zona Sul. Já “O incidente em Campo Grande”, de Alvaro Senra, da antologia de 2024, amplia o eixo geográfico das narrativas até a Zona Oeste. Até autores que não deixam clara a ambientação geográfica de seus contos acabam entregando pistas para um bom conhecedor da cidade. É o que acontece com “Canteiro central”, de Rafael Simeão, num texto sobre um personagem tentando atravessar uma via movimentada enquanto o dia passa. Não será mera coincidência cravar que a história se passa na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste, com suas longas avenidas praticamente intransponíveis para o pedestre. Simeão, de 38 anos, é um professor da rede pública nascido em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, que atualmente mora em São Cristóvão, na Zona Norte do Rio. A seleção para participar da primeira edição do Rio de Contos abriu as portas do mercado literário para o autor, que no ano passado publicou pela Alfaguara — do grupo Companhia das Letras — o livro “Quando chega nossa vez acaba”. São nove contos que, apesar de independentes, criam um microcosmo do subúrbio carioca. — É mais fácil escrever sobre o que vivenciamos. Gosto de falar da periferia para tratar de temas universais. São vozes pouco visibilizadas — justifica o autor, cujos personagens são moradores da mesma vizinhança que acabam se conectando ao longo do livro. Embora a maioria das inscrições venha das zonas Sul e Norte, o concurso tem revelado uma cidade múltipla, com histórias que contemplam os diferentes bairros e assuntos. Se temas como carnaval e violência urbana costumam se repetir, entre os personagens chama a atenção a presença recorrente de Bárbara dos Prazeres, a “Bruxa do Arco do Teles”. Ela é a protagonista da lenda urbana carioca sobre a portuguesa que, após matar o marido, teria virado prostituta e, em busca da fonte da eterna juventude, partiu para a feitiçaria, usando o sangue das crianças que raptava. No interior é diferente Por outro lado, nas narrativas vindas do interior, os assuntos mais correntes estão associados à violência doméstica e à memória familiar, além de elementos místicos ou históricos. Nascido em Volta Redonda, região do Médio Paraíba, Jader Moraes, de 38 anos, há 11 no Rio, mora em Vila Isabel e atua no carnaval como enredista da Grande Rio. Ele enxerga na festa momesca uma das formas de pensar a cidade. Já ao participar da segunda edição do concurso, foi buscar inspiração em sua vivência interiorana para escrever o conto “Vidalida”. O texto retrata uma família negra no pós-abolição. — Tenho esse duplo lugar. Acho que o carnaval faz parte da nossa gênese. Mais do que simplesmente um evento que acontece na cidade, olhar para a festa ajuda a entender melhor o Rio — avalia o autor. Para Bárbara Cortesi, idealizadora e coordenadora do Prêmio Rio de Contos, o concurso ajuda a montar um retrato do que é o Rio de Janeiro. — O que é um lugar senão as histórias que ele tem para contar? É um retrato porque o carioca fala muito do Rio, do seu bairro e dos lugares de afeto, entre outros temas da cidade — diz. O levantamento mostra também que, ao longo das edições, o concurso se firmou não só como plataforma de descoberta, formação e projeção de novos escritores fluminenses, mas também com espaço de fortalecimento de uma diversidade de vozes. Henrique Bulhões, de 32 anos, autor de “Beatriz”, diz que, como homem trans, encontrou na literatura a oportunidade para falar de gênero e sexualidade. Aos 61, Luiz Henrique Romagnoli, autor do “Guia de Rock em CD” em parceria com Arthur Dapieve (ambos jornalistas), tomou coragem de retirar da gaveta seus textos de ficção, com o conto “Sobre peso e geladão de abacaxi”. O concurso abre espaço ainda para o frescor criativo de jovens como Emily de Oliveira, de 27, autora de “Blackout”. E também têm destaque os talentos periféricos como Renan Alonso, de 31 anos, cria de Bangu, autor de “Tem tempo pra isso não”, e Taís Victa, de 39, que é surda oralizada e buscou inspiração em Nina Simone e Clarice Lispector para escrever “Para os dias em que estamos à mesa como GH”. Diferentemente de outros concursos, o Prêmio Rio de Contos não tem premiação em dinheiro. Os 20 selecionados por um júri de peso com nomes como o do imortal da ABL, Geraldo Carneiro, passam por um rigoroso processo de lapidação para o mercado editorial, que dura seis meses.
Carnaval, violência e uma boa dose de bairrismo e lenda urbana: o que contos de novos autores do Rio revelam sobre o estado
Desde 2020, o concurso se dedica a descobrir e lapidar novos talentos literários fluminenses











