Dois episódios trágicos da história do Chile, separados por quase um século, tiveram como palco o mesmo pedaço do fim do mundo: o ambiente subantártico da ilha Dawson, no meio do estreito de Magalhães.
Em ambos os casos, decisões autoritárias do Estado chileno transformaram a ilha em prisão, primeiro confinando boa parte dos indígenas da região, no fim do século 19, e, nos anos 1970, criando um campo de concentração para membros do governo Salvador Allende, derrubado por militares golpistas, entre eles o general Augusto Pinochet.
Ao seguir os fios que ligavam ambas as histórias de brutalidade, o escritor e crítico literário paulistano José Godoy teve de responder algumas vezes a mesma pergunta: por que um brasileiro foi se interessar por um lugar tão longínquo? A distância, porém, é muito mais aparente do que real, diz ele.
"Se a gente procurar em cada um dos países da América Latina, a gente vai encontrar uma ilha Dawson", afirma Godoy, referindo-se ao que chama de "espaços de recorrência traumática" no continente, unidos pela combinação de colonialismo e autoritarismo.
Os episódios são a espinha dorsal do novo livro do autor, "A Ilha do Silêncio: Terror e Genocídio na Terra do Fogo", fruto de seu doutorado em literatura pela PUC-RJ.









