A força do ódio me fazia largar imediatamente a faca, o garfo, a colher de sopa. Qualquer sacrifício valia a pena para que eu não fosse obrigado a sair trotando por aí Mãe ajuda filho a aprender a andar de bicicleta — Foto: Maginific RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 26/05/2026 - 22:52 Reflexão sobre o Tempo e o Crescimento na Simplicidade da Vida Em uma crônica nostálgica, o autor reflete sobre a passagem do tempo ao presenciar um momento simples e tocante: uma mãe incentivando seu filho a andar de bicicleta sem rodinhas. Esse instante serve como metáfora para o crescimento dos filhos e a rapidez com que a vida avança. O autor lamenta não ter compartilhado suas reflexões com a mãe, mas espera que suas palavras alcancem aqueles que ainda podem aproveitar esses pequenos momentos. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Nada mais melancólico que o fim de tarde de um domingo nublado. Não tem mais a abertura dos Trapalhões, mas ainda ouço a musiquinha do Fantástico em algum lugar, avisando que acabou a alegria do fim de semana. Amanhã é segunda-feira. Sobre o que escrever? Passei a Cobal, dobrei na praça Cláudio Coutinho, entrei na Fadel. Estava com os vidros abertos e o som desligado, coisas de um domingo nublado. Fui devagar, o sinal lá na frente estava vermelho. Distraído, olhei para a praça. Parei o carro. Foram alguns segundos. Uma mãe, um garoto. Ela, que vinha correndo, soltou a bicicleta e o menino foi, sozinho, sem as rodinhas para ajudar. Dois, quatro, dez metros. “Pode largar!”, ele gritou. Foi aí que vi o menino olhar para trás, ver a mãe distante, e, entre o espantado e o fascinado, perceber que já estava solto há tempos. O sorriso da mãe, o olhar do menino. Foram apenas alguns segundos. Ora, que importância tem isso, pensará o leitor mais apressado, ocupado que está numa quarta-feira cheia de obrigações e responsabilidades. É só um acontecimento corriqueiro, uma bobagem no meio de tantas notícias importantes, dirá ele, até chateado, já querendo virar a página. Calma. Você ainda lembra da primeira vez que andou de bicicleta sem rodinhas? E da primeira vez do seu filho? Pois é. A primeira palavra, os primeiros passos, a bicicleta sem apoio. Quando a gente se dá conta, eles já estão longe, fazendo planos para a festa de formatura, falseando a idade para entrar onde não devem, pedindo para voltar às quatro da manhã de uma festa que dizem nem saber direito onde será. Pensei em parar o carro e ir lá falar com a mãe. Senta aqui, moça, que preciso te contar algo muito importante: passa muito rápido, voando, e quando você se der conta, esse olhar dele vai ser só uma lembrança. Você é muito jovem, deve achar que tem muita coisa acontecendo, que amanhã tem uma reunião fundamental no trabalho, que precisa correr atrás daquela promoção, que ainda tem que entregar a declaração de Imposto de Renda. Sim, moça, você tem razão, mas é este momento, em um fim de tarde de domingo, que você vai lembrar para sempre. Melhor não, concluo, ela vai achar que sou um doido, como tantos que existem por aí. Mais um cara sem noção, falando coisas confusas e sem sentido. Penso em escrever um bilhete, deixar com ela, mas fico sem graça e o sinal abriu lá na frente. Não gosto de atrapalhar o trânsito. Fui embora, com o olhar do menino iluminando o meu domingo nublado. Peço desculpas ao leitor apressado: ia escrever sobre a desordem das bicicletas elétricas ou o absurdo que os shoppings estão cobrando pelo estacionamento, mas vou usar o espaço para tentar consertar o erro de não ter dito nada naquela hora. Vai que esta coluna, levada pelos tais algoritmos, chega à mãe que estava com o filho pequeno, na Praça Cláudio Coutinho, às 17h40 do último domingo. Obrigado a você e ao seu filho, por curar a melancolia de um cronista no fim de domingo. Guarde com carinho e cuidado o olhar dele no instante em que descobriu que podia seguir sozinho. Você vai precisar. No mais, aproveite este momento: daqui a pouco ele cresce e te manda uma mensagem no meio da madrugada, avisando que está se divertindo com os amigos e não sabe a hora que vai voltar.
Mensagem para uma mãe e seu filho
A força do ódio me fazia largar imediatamente a faca, o garfo, a colher de sopa. Qualquer sacrifício valia a pena para que eu não fosse obrigado a sair trotando por aí














