Ver alguém que você ama sofrer e se sentir impotente para minimizar a dor dela é uma das experiências mais angustiantes da vida. Quando somos vistos como quem potencializa o desespero do outro, justo quando tentamos confortá-lo, cria-se um duplo abismo emocional

De um lado, sem conseguir processar o desamparo insuportável que vive, sua mãe projeta em você um terror que não tem lugar para ir. Ela te ataca, desconfia, hostiliza. Do outro, você, subitamente sem chão e sem recursos para tirá-la dessa espiral de paranoia. Você, também numa espiral, que é a vertigem de quem não só não consegue ser colo, como também se confronta com a própria angústia de perder o colo primevo. Estamos todos num não lugar: um vazio de significado entrelaçado a um emaranhado de emoções contraditórias e ambivalentes.

Em seus delírios, ela pede para voltar para casa. No seu amor, você tenta explicar que aquela é a casa dela. Ela se sente traída, desamparada. Você também. Você, que tem feito de tudo para estar perto, para distrair, para explicar. Mas não há palavra que nomeie, que acalme, que explique que você é amor e não ameaça. Ela chama pela mãe, pelo pai. Você diz que está aqui. Ninguém se encontra. Ainda que no mesmo lugar, perdemos todos a casa como símbolo de contenção. Perdemos o outro e perdemo-nos de nós mesmos. Perdemos a paciência, a esperança, as forças… E nos culpamos por isso.