Será que você é mesmo dependente emocional ou está patologizando seu desejo de afeto e cobrando-se uma independência defendida pelos nossos tempos, tão ilusória quanto cruel?

"Dependência emocional" é um desses termos sequestrados por vídeos com alto poder de clique e elevado grau de simplificação, que transformam a busca por afeto em transtorno psicológico. Precisar de alguém e esperar validação virou falha de caráter, problema muitas vezes apontado por parceiros e familiares pouco disponíveis que, em vez de se responsabilizar pela falta de cuidado, invertem o jogo e te culpam pela falência da relação. É você que é carente, dependente, que tem apego ansioso.

Não, não é você. Não, não é falha de caráter. O que adoeceu o vínculo não foi o seu desejo, e sim o imperativo de autonomia absoluta como condição das relações.

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), vivemos uma epidemia global de solidão: 1 em cada 6 pessoas se sente sozinha, e essa solidão está associada a 100 mortes por hora. Corremos mais risco de vida tentando ser "autossuficientes", convencidos de que temos que aprender a não demandar, do que assumindo que precisamos de afeto.

"Cuide de você; se ame, se baste" é o golpe do amor próprio neoliberal, que embala como autocuidado a negação do nosso desamparo. Não por acaso, vivemos tempos de "desnutrição afetiva", que se agrava por uma espécie de "anorexia amorosa", reflexo do medo de se alimentar do outro, do vínculo. Presos no mito das relações leves, onde pedir é pesar, hiperdiagnosticamos o que é humano e nos perdemos tentando consertar algo que é condição e não obstáculo para o vínculo.