Antes de julgar o incômodo que aparece com a chegada do novo filho de seu ex-marido como amor mal resolvido, inveja ou imaturidade, te convido a acolher os velhos traumas que vêm à tona com o bebê. Certos acontecimentos não criam dores inéditas, reativam dores antigas.

Há ecos de ausência e lutos familiares presentes nesse embrião. Por isso, antes de moralizar o que sente, talvez seja importante olhar com compaixão para seus fantasmas.

Num país marcado por ausências paternas, —dos pais que nunca reconheceram seus filhos aos que mantiveram visitas protocolares quinzenais, sem intimidade real— talvez você seja uma dessas filhas da falta. Filhas que sentiram que, quando o homem se separou da mãe, separou-se delas também. Porque, muitas vezes, a separação conjugal levou também a um distanciamento físico e emocional do pai. E são anos de terapia tentando elaborar a presença dessa ausência.

Ao constituir sua própria família, há um desejo silencioso de reparação: construir para os filhos a experiência emocional que faltou para você. Não apenas ser a mãe amorosa que talvez não teve, mas também construir um lar com um pai afetivamente disponível e presente. Esse era o plano de vocês dois. Essa foi a tentativa.