Segundo Leniel, em uma das ocasiões em que devolveu Henry à mãe, o menino apresentou comportamento incomum e demonstrou resistência em retornar para casa. O pai relatou que a criança chegou a ter ânsia de vômito e não queria sair de seu colo. De acordo com o depoimento, Henry só aceitou se despedir depois que Monique afirmou que procuraria uma nova residência. Leniel também contou que o filho pediu para ir para a casa da avó, mas que a mãe respondeu que ele teria de ir para o apartamento onde morava com ela. Pai do menino Henry, Leniel Borel participou do evento que marcou a inauguração da sala de acolhimento à vítimas — Foto: Divulgação/MP-RS Ao longo do depoimento, Leniel afirmou que, com base em fatos que conheceu posteriormente durante a investigação, passou a acreditar que Monique teria agido de forma premeditada. A declaração levou a juíza Elizabeth Machado Louro a interromper o relato para questionar o pai de Henry, observando que essa suspeita não havia sido mencionada anteriormente por ele em outras oportunidades. Com a saída dos dois réus, nenhum deles acompanhou o depoimento do pai da criança. Leniel relata choque ao ver o filho Justiça retoma julgamento do caso Henry Borel; mãe e padrasto são acusados de tortura e homicídio qualificado — Foto: Jornal Nacional/ Reprodução Ao relembrar a madrugada de 8 de março de 2021, Leniel Borel contou aos jurados que recebeu uma ligação de Monique Medeiros por volta das 4h20 da manhã, quando seguia para o trabalho em Macaé. Segundo ele, a mãe de Henry informou que o menino estava em parada cardiorrespiratória no Hospital Barra D'Or. Pouco depois, Jairinho também falou ao telefone e pediu que ele fosse até a unidade de saúde. "Vem aqui para o Barra D'Or que o Henry está em parada cardíaca", relatou Leniel, reproduzindo a fala atribuída ao ex-vereador. O pai de Henry afirmou que chegou ao hospital cerca de 20 minutos depois e encontrou médicos tentando reanimar a criança. Emocionado, contou que a cena o marcou profundamente. "Eu vejo meu filho cheio de marcas, deitado na maca, rígido. Eu entreguei ele bem de saúde horas antes. Aquela criança já não era meu filho." Segundo Leniel, naquele primeiro momento Jairinho afirmou que havia acordado após ouvir um barulho e encontrado Henry caído. O pai da criança disse que a explicação apresentada pelo casal chamou sua atenção imediatamente, principalmente pela informação de que Monique teria feito os procedimentos de reanimação enquanto Jairinho dirigia até o hospital. "Eu conhecia a Monique há oito anos e ela nunca fez um curso de primeiro socorro. Qual era o mais lógico? Era o Jairinho, que é médico, fazendo os procedimentos e a Monique dirigindo. Mas não. Isso já me chamou atenção. Ligou o alerta na hora." Jairinho durante o depoimento no caso Henry — Foto: Divulgação/Brunno Dantas e Felipe Cavalcanti/TJRJ Durante o depoimento, Leniel também chorou ao comentar os acontecimentos que antecederam a morte do filho e afirmou acreditar que oportunidades de interromper a situação foram perdidas ao longo das semanas anteriores. "Isso me dói, isso me machuca. Tiraram toda possibilidade do Henry se salvar e tiraram a minha oportunidade de salvar meu filho." O julgamento prossegue nos próximos dias com novas testemunhas de acusação e defesa antes dos interrogatórios dos réus e dos debates finais entre acusação e defesa. Pressão para acelerar procedimentos após a morte Ao descrever as horas seguintes à morte do filho, Leniel Borel afirmou ao Tribunal do Júri que se surpreendeu com o comportamento de Jairinho e Monique. Segundo ele, ainda no Hospital Barra D'Or, o ex-vereador teria sugerido que o pai da criança cuidasse dos procedimentos junto à polícia enquanto ele e Monique ficariam responsáveis pelo enterro. "Ele chegou perto de mim e disse: 'A partir de agora você segue? Então tá, você faz a parte de delegacia e a gente faz a parte do enterro'", relatou Leniel, atribuindo a frase a Jairinho. O pai de Henry também afirmou que ouviu do ex-vereador uma tentativa de consolar Monique logo após a morte da criança. "Monique, levanta, vida que segue, vocês fazem outro filho", disse Leniel ao reproduzir uma fala que atribuiu a Jairinho. Segundo o depoimento, a insistência para acelerar os procedimentos continuou nas horas seguintes. Leniel afirmou que recebeu diversas ligações e mensagens de pessoas ligadas a Jairinho enquanto seguia para o Instituto Médico-Legal (IML) e que uma assessora do então vereador chegou a sugerir que ele procurasse a direção do órgão. Já no IML, segundo o relato, Monique teria insistido para que a liberação do corpo fosse agilizada. "Ela chega no IML e quando ela chega pra mim é o clímax da omissão. Ela chega calada e calada ela fica o tempo todo", afirmou. Leniel também relatou que estranhou a defesa inicial da hipótese de acidente doméstico e disse que familiares de Monique pediram que ele abandonasse o caso. "Era para eu deixar isso pra lá, que poderia ser Covid, que era queda de cama", declarou. 'Jairinho só foi morar com a Monique por causa do Henry', diz Leniel Em um dos momentos de seu depoimento, Leniel Borel afirmou aos jurados acreditar que Jairinho se aproximou de Monique Medeiros por causa de Henry. A declaração foi feita ao comentar os elementos reunidos durante a investigação e os relatos apresentados ao longo do julgamento. "Com tudo que a gente tem na mão hoje, o Jairinho só foi morar com a Monique por causa do Henry. Ele não foi morar com a Monique apenas porque ela era uma mulher bonita, uma mulher vistosa, não. Ele foi morar com a Monique por causa do Henry. Porque ele tinha prazer em agredir crianças." Leniel Borel no quarto de Henry, 1 ano após a morte do filho: ele transformou luto em luta por justiça — Foto: Marcos Serra Lima/g1 Segundo o pai da criança, as provas e testemunhos produzidos no processo indicam que o ex-vereador tinha interesse específico em Henry e que Monique tinha conhecimento dos sinais de violência sofridos pelo filho. "Todos os sinais demonstram que a Monique sabia", afirmou. Leniel também contestou a tese apresentada pela defesa de Monique de que ela teria sido completamente dominada pelo então companheiro. Segundo ele, pessoas próximas ao casal relatavam uma dinâmica diferente da sustentada pela ré. Ao concluir o raciocínio, o pai de Henry fez a declaração mais forte de todo o depoimento. Leniel relata ameaças Na parte final de seu depoimento à promotoria, Leniel Borel afirmou que passou a conviver com ameaças e medidas de segurança após a morte do filho. Segundo ele, a exposição pública do caso e a influência política da família de Jairinho fizeram com que buscasse proteção para continuar acompanhando o processo. "Ser político hoje foi uma forma de proteção. Estou falando de um vereador com cinco mandatos, um ex-deputado estadual. Se eu tivesse um mecanismo para igualar as forças", declarou. Jairinho e Monique Medeiros se reencontraram pela primeira vez desde a prisão pela morte de Henry Borel — Foto: Brunno Dantas/TJ-RJ O pai de Henry afirmou que, ao longo dos últimos anos, enfrentou situações que interpretou como tentativas de intimidação. Segundo ele, pessoas foram até seu apartamento, assessores teriam sido alvo de ameaças e ele precisou alterar sua rotina. "Eu tenho que andar de carro blindado, com segurança. E ninguém me ofereceu segurança", disse ele. Em um dos momentos mais duros do depoimento, Leniel acusou pessoas ligadas à defesa de Jairinho de tentar desviar o foco da morte de Henry e concentrar esforços em atacá-lo pessoalmente. "Hoje já não há nem mais defesa de Jairo e Monique. A defesa do Jairo tenta me difamar, me perseguir. No final, o que eles estão tentando é chegar nesse dia de hoje e tentam me coagir", disse. Por volta de 23h40, a juíza deu um intervalo para o jantar de jurados e testemunhas. Até a última atualização desta reportagem, Leniel só havia respondido os questionamentos da promotoria, faltando ainda os advogados de assistência de defesa, e dos réus Monique e Jairinho.
Leniel diz que suspeita de premeditação da morte do filho por Monique | G1
Segundo Leniel, em uma das ocasiões em que devolveu Henry à mãe, o menino apresentou comportamento incomum e demonstrou resistência em retornar para casa











