Escolhi essa pergunta, entre tantas que se angustiam com amores que não vingam, porque ela traz, discretamente, algo que costuma escapar: a percepção de que, muitas vezes, o desinteresse também é nosso —e nem sabemos bem por que algo esfriou em nós.

Implicar-se nesse incômodo, nesse "não saber", evita que sigamos respondendo de forma simplista, mas acalentadora: culpando o outro. Cada um elege um culpado conveniente. As mulheres héteros dizem que o homem se assusta com as fortes e mantém flertes em paralelo para não renunciar a nada; os héteros, que elas pedem sensibilidade, mas se desinteressam quando a fragilidade aparece; os gays acusam a hipersexualização que reduz tudo a sexo; as lésbicas, o rebote de fusionar cedo demais. E todos culpam os apps e o egoísmo hiperestimulado de nossos tempos.

Esses comportamentos existem, mas tomá-los como verdade absoluta é não lidar com "a parte que nos cabe nesse latifúndio". Reclamamos que "ninguém quer nada com nada". Mas não percebemos que estamos em uma lógica de "tudo ou nada" que inviabiliza qualquer vinculação humana —essencialmente ambivalente, ambígua, falha e falta.

Por uma dessas sincronias, recebi enquanto escrevia o relato de outro homem: "Tenho a sensação de que tá sempre faltando algo… minha última relação chegou ao fim mesmo eu entregando a melhor versão de mim. Não foi suficiente… Tá difícil achar um denominador comum. Será que homens e mulheres querem coisas tão diferentes? Sempre falta alguma coisa".