Entre o sujeito que "deveríamos" amar e aquele que elegemos existe o abismo e o espanto de nunca saber ao certo o que nos une ao outro. Pode ser pura repetição do trauma dos primeiros encontros, pode ser justamente aquilo que nos separa e cura deles. Estamos condenados a buscar a reedição de um prazer do qual quase nada sabemos e que pode ser destrutivo ou libertador. Geralmente uma combinação dos dois.
O amor entre humanos é da ordem da necessidade, o que gera embaraço de saída. Ele vem do fato de que não há nenhuma garantia de que quem nos recebe nesse mundo se apaixone por nós. Que haja alguém que deixe uma considerável cota de libido, espaço, tempo, grana ou sono no altar da parentalidade é imponderável.
O amor que nos constituiu vem com maior ou menor intensidade, com mais ou menos ambivalência —nunca inteiramente sem— e nos marca para sempre. Vamos buscá-lo nas relações que o sucedem de forma repetitiva. Parte das marcas iniciais é inconsciente e deixa um ponto cego libidinal, que vai se apresentar nas escolhas amorosas incompreensíveis que fazemos ao longo da vida.
Outro embaraço se apresenta da dissociação entre amor e desejo. Ao contrário da cartilha rezada pela família burguesa, amor e desejo podem até se unir, mas não por ordem da vontade consciente. São os caminhos insondáveis que provam que somos regidos por forças que nos dominam, não o contrário. Nos resta decidir o que fazer com essas forças e nos responsabilizarmos pelas consequências dessa decisão.













