Não é aceitável uma mulher ter de pisar em ovos o tempo todo, evitar amigas, fazer compras escondida, ser proibida de vestir o que quiser, passar o dia vigiada Cena do filme 'Cinquenta tons de cinza' — Foto: Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 04/06/2026 - 22:15 Romantização da Violência em Relacionamentos e o Impacto Real O artigo discute a romantização da violência em relacionamentos, destacando como comportamentos abusivos muitas vezes são confundidos com amor ou cuidado. Referências à obra "Cinquenta Tons de Cinza" ilustram como agressões podem ser normalizadas. Pesquisas mostram que muitos não reconhecem controle financeiro e social como violência. Histórias reais de mulheres revelam o impacto devastador do abuso psicológico e emocional. A maturidade traz a libertação dessas relações tóxicas, com o "divórcio grisalho" ganhando força, enquanto mulheres buscam a paz e a alegria. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Estava lá pelos meus 40 anos quando houve um surto feminino coletivo chamado Cinquenta Tons de Cinza. O best-seller que vendeu mais de 100 milhões de cópias ao redor do planeta virou filme, tema de incontáveis clubes de leitura e fez uma legião de mulheres suspirar pelo personagem masculino, que atende pelo nome de uma antiga marca de cosméticos de má reputação. O tal milionário bonitão Christian Grey procurava uma companheira para dominar, com tapas, amarrações, chicotadas. E mais: alguém que se sujeitasse a controle permanente, falta de intimidade emocional, tratamento de silêncio, tudo isso sem questionar. A trama mirou no fetiche e acertou na violência doméstica. O que me fez pensar, já naquela época, em como agressões podem ser romantizadas. A vítima em questão, Anastasia Steele, se apaixonou pelo predador e se atormentava pensando em como resolver os traumas de infância dele, em vez de fingir que ia comprar cigarro e desaparecer. O Datafolha divulgou pesquisa encomendada pelo Movimento Mulher 360 em que os brasileiros identificam a violência contra a mulher como o problema mais grave atualmente na segurança publica. Mas só as agressões físicas são percebidas. Mais de 40% dos entrevistados não acham que é violência quando um homem impede a parceira de sair para uma confraternização, toma conta do salário dela ou controla as amizades. E aqui falamos de homens e mulheres que acreditam que esses comportamentos podem ser aceitáveis dentro de um namoro ou casamento. A maneira como aprendemos a nos relacionar ainda passa pela superioridade de um e pela submissão da outra. O homem que tira autonomia financeira da esposa muitas vezes é visto como cuidadoso e responsável, aquele que administra a renda da família. O sujeito que proíbe a mulher de sair ou de usar determinadas roupas imprime alguém que só quer proteger a companheira. Existe uma confusão generalizada entre dominação e amor. A armadilha funciona contra mulheres pouco ou muito esclarecidas. Nas pesquisas para meus livros, conheci uma médica psiquiatra, que orientava pacientes vítimas de violência doméstica e demorou a perceber o que acontecia dentro da própria casa. O então marido demandava empréstimos bancários no nome da esposa. Ela nunca via a cor do dinheiro, e ele nunca pagava as prestações. Cedia porque achava que era sua função socorrer o companheiro. Essa médica também era violentada dentro do casamento, num tipo de abuso sexual difícil de identificar. Muitas vezes manteve relações por coação, porque, se recusasse, ele começava a acender as luzes e fazer escândalo na casa, acordando os filhos pequenos. Outra mulher, advogada inteligentíssima e bem-sucedida, contratada com alto salário numa multinacional, foi ao longo de anos tratada com gritos, xingamentos, ameaças e era cobrada a dar satisfação de cada passo. Desenvolveu gastrite, depressão, taquicardia, falta de ar e tremedeiras que a levavam a esconder as mãos. Pediu demissão do emprego. Diagnóstico médico: transtorno de estresse pós-traumático. Com esse laudo, a Justiça decidiu por uma rara condenação exclusivamente por violência psicológica para o agora ex-marido. A violência sem contato físico também causa danos — e também é crime. Um relacionamento não pode ser motivo de medo e tensão permanente. Não é aceitável uma mulher ter de pisar em ovos o tempo todo. Evitar amigas. Fazer compras escondida. Ser proibida de vestir o que quiser. Passar o dia vigiada. Lembro um antigo relacionamento em que, se eu perdesse a noção do tempo num shopping, precisava inventar alguma história para justificar a demora. Mentia para não parecer que estava mentindo. A percepção sobre esses abusos e a capacidade de se libertar de relacionamentos tóxicos têm chegado com força entre nós, mulheres de 50 anos. Num trocadilho inesperado com o filme, o gray divorce, ou divórcio grisalho, chama a atenção no mundo inteiro. A maturidade nos leva a recusar a pressão social para estar num relacionamento. Não ligamos mais muito para o que pensam de nós. Com filhos em geral já criados, é hora de trocar sacrifício por leveza. E de pôr um fim em relacionamentos abusivos. Mulheres passam anos carregando a obrigação de cuidar de todos, mesmo à custa do próprio sofrimento. Acreditam que cabe a elas aturar, e mesmo transformar, homens agressivos, encostados ou simplesmente chatos. E demoram a enxergar as possibilidades de uma vida mais feliz. Com alguma frequência, nos eventos de autógrafo, recebo jovens na casa dos 20 anos comprando meu livro para a mãe, relatando que ela agora começa a se libertar. Nesse cenário, o Dia dos Namorados que se aproxima terá muitas variações. Entre minhas amigas mais discretas e outras que gostariam que eu publicasse nome e telefone de contato, optei por trazer apenas as histórias. Uma está recém-separada e curtindo cada segundo como uma volta à adolescência. Outra, casada há trinta anos, conta que o melhor momento do dia ainda é quando deita para dormir no ombro do marido. Uma terceira descobriu atração por mulheres e tem encontro romântico marcado para a próxima sexta. E tem a que organiza festa de casamento. Saiu traumatizada de anos com um namorado violento, mas se reencontrou com o amor. Que a gente consiga sempre zelar pela nossa paz e pela nossa alegria. Um feliz Dia dos Namorados para todos.
Um relacionamento não pode ser motivo de medo e tensão permanente
Não é aceitável uma mulher ter de pisar em ovos o tempo todo, evitar amigas, fazer compras escondida, ser proibida de vestir o que quiser, passar o dia vigiada










