Já não basta sentir, conviver e cuidar da pessoa amada. É preciso fotografar, filmar, postar. A lógica dos algoritmos invade o amor romântico de uma forma inédita Hoje vivemos numa sociedade em que a intimidade exige validação pública — Foto: Gaizka IROZ / AFP/07/06/2026 RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 08/06/2026 - 18:10 A Exposição do Amor nas Redes: Validação Pública e Algoritmos A vida amorosa moderna está cada vez mais exposta nas redes sociais, onde a validação pública se torna essencial. O amor, antes íntimo, agora é fotografado e postado, invadido pela lógica dos algoritmos. Datas como o Dia dos Namorados, com origens comerciais e históricas, reforçam essa exibição pública. A questão não é a exposição em si, mas por que o amor precisa de tanta demonstração pública de felicidade. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Que o amor romântico precise de uma data comemorativa não é motivo para estranhamento? Não por ser contra comemorar, mas a escolha de uma data nunca é inocente. Calendários comerciais vestem vínculos amorosos com a roupa de grife do mercado. Na maior parte do mundo, a origem mais difundida do Dia dos Namorados está ligada à memória de São Valentim, misturando poder político e rebeldia em nome do amor. De acordo com a versão mais conhecida, Valentim foi um sacerdote católico que desobedeceu às ordens do imperador Cláudio II proibindo novos matrimônios, por acreditar que soldados solteiros eram mais valentes. Valentim, que celebrara casamentos às escondidas, acabou descoberto, preso e condenado à morte. A execução foi no dia 14 de fevereiro. Depois de alguns séculos, a data passou a ser comemorada em boa parte do mundo como dia de celebrar o amor romântico. É assim em quase toda a América do Norte, na Europa e em grande parte da Ásia e da África, além de em países vizinhos da América Latina, como Argentina, Chile, Colômbia e Uruguai. No Brasil, a origem do Dia dos Namorados foi uma estratégia comercial que se apoiou no imaginário religioso associado a Santo Antônio. O frade franciscano ficou conhecido como “santo casamenteiro” porque, segundo a tradição popular, no Portugal do século XIII ajudava moças pobres a obter recursos para pagar o dote, prática comum na época em que a família da noiva oferecia bens ou dinheiro para o noivo ou sua família. No ano de 1948, uma campanha publicitária propôs que o dia 13 de junho se tornasse a data de celebração da paixão e do amor romântico para impulsionar as vendas num mês tradicionalmente fraco para o comércio. Mas havia um problema: naquele ano, o dia de Santo Antônio caiu num domingo, visto como desfavorável para vendas. O pragmatismo deixou a devoção de lado, e o publicitário João Agripino Doria antecipou para o sábado, batizando assim o 12 de junho como Dia dos Namorados. Hoje vivemos numa sociedade em que a intimidade exige validação pública. A vida amorosa foi empurrada para a vitrine das redes sociais; já não basta sentir, conviver e cuidar da pessoa amada. O imperativo da confusão entre as esferas privada e pública da vida dita suas regras. É preciso fotografar, filmar, postar. A lógica dos algoritmos invade o amor romântico de uma forma inédita. Parece que, sem engajamento, todo relacionamento amoroso se torna suspeito. Às vezes, alguém pode comentar: “Casal estranho, não posta nada junto”. Se a medida de amar está nas postagens da viagem de uma nova lua de mel, cabe a pergunta: presença ou performance? Isso não significa que quem posta fotografias e vídeos felizes não esteja amando de verdade. Não é o caso de condenar a exposição da intimidade — seria muito moralista. A questão é outra: por que os vínculos amorosos precisam de tanta demonstração pública de felicidade? Pode até parecer que o jantar à luz de velas e uma declaração pública são requisitos obrigatórios de uma prova de amor estampada nas redes sociais. Na lógica do mercado dos afetos, a intimidade corre um risco: virar um produto com meta de engajamento. Às vezes, uma cerveja compartilhada em silêncio, depois de um dia exaustivo, pode dizer mais sobre amor que um álbum inteiro de fotos românticas. *Renato Noguera é professor de filosofia na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e autor, entre outros livros, de “Por que amamos” e “O ABC do amor”