Antes de apertar o botão de postar, você já se perguntou se daqui a dez anos seu filho vai gostar de se ver exposto daquela forma espertinha ou fofinha diante de milhões de desconhecidos? A exposição pode ser apenas demonstração genuína de afeto, mas o problema é que a infância virou a commodity de engajamento mais rentável do mercado, o que coloca carinho e exploração lado a lado, num ambiente sem fiscalização.

No livro "Like, Follow, Subscribe" ("Curta, Siga, Inscreva-se"), Fortesa Latifi se debruça sobre a vida dos influenciadores mirins. O depoimento de Shari Franke, agora com 23 anos, deveria assombrar qualquer pai ou mãe que insiste em transformar a rotina dos filhos em conteúdo. Enquanto a mãe vendia um dia a dia cheio de harmonia, impunha castigos aos filhos nos bastidores —acabou condenada por abuso infantil.

Você pode pensar: "Mas eu não exploro meu filho". E aquela foto inofensiva que pode ter ido parar num fórum de pedofilia?

No Brasil, a engrenagem do conteúdo "por criança para criança" gira num vácuo legislativo absoluto. O que existe é uma tentativa de empurrar esse fenômeno para as regras do trabalho artístico, que exige autorização judicial. Na prática, a rotina de quem fatura com a imagem do filho ocorre sem controle de horas de exposição ou garantia de que o dinheiro seja destinado ao menor.