Não sei viver sem o meu marido. Ou melhor, saber, sei, mas não quero. Estou certa de que os meus dias são melhores com ele ao meu lado. E tenho a certeza de que isto não contraria as minhas convicções feministas e a minha independência. O amor saudável por este homem e a minha individualidade coexistem; cabem os dois na mesma casa, no mesmo quarto, como duas respirações que aprenderam a não se atropelar. Dizer que o amo é pouco. Ele é uma das principais razões do meu equilíbrio. Antes dele, muitas vezes sentia-me suspensa por grampos ao frágil tiquetaque diário da vida, como quem atravessa os dias sem os habitar.Conhecemo-nos de uma forma nada romântica, bastante violenta. Estávamos ambos a estagiar para comissários de bordo numa companhia de aviação. Era, na verdade, o penúltimo dia de estágio. Claro que eu já tinha reparado nele, mas tínhamos trocado poucas palavras até ao acidente.Eu estava comprometida com outro rapaz. Nesse dia, o dia do acidente, que viria a ser a causa da nossa união, fazíamos um exercício de simulação de emergência — evacuar passageiros e tripulação o mais rápido possível. Tínhamos de descer pelas mangas insufláveis colocadas nas saídas do avião, respeitando o intervalo de espaço e tempo entre colegas. Eu desci primeiro pela manga até ao chão. Ele seguiu-me, mas não respeitou o tempo de espera e lançou-se antes de eu ter conseguido sair completamente.Estava eu a rodar sobre mim própria para me levantar quando levei um pontapé na cara, mesmo em cheio na maçã do rosto. Percebi imediatamente que ia ficar com a cara à Belenenses. O que eu não sabia era que aquele hematoma seria o pretexto que o cosmos arranjou para nos juntar. Um pontapé na cara. Não será a atracção quase sempre um acidente? Um acaso? Um gesto involuntário que muda tudo? Neste caso, não precisava de ter sido tão violento.O estágio terminou no dia seguinte, ele continuou a telefonar-me todos os dias. O inchaço na cara desinchou e tornou-se um mapa negro, depois desapareceu aos poucos e nessa lenta metamorfose do trauma físico também a minha vida mudou. Troquei de namorado.
Um pontapé do destino
Antes dele, muitas vezes sentia-me suspensa por grampos ao frágil tiquetaque diário da vida, como quem atravessa os dias sem os habitar.














