Quando eu era criança, os verões eram passados na aldeia de pescadores onde meus avós e tios-avós (aquela que me iniciou no carteado) construíram casas de frente para o mar, atraentes para os não iniciados, enquanto os locais, mais espertos, faziam suas casas nas ruas de trás, protegidas do vento por um declive.

Na minha visão de criança, o idílio tinha um problema grave: o mar aberto era incerto. Calmo feito as águas do Caribe num dia, no outro ele podia estar só "bravo" ou, pior, "de ressaca", as expressões divertidas do português que traduzo literalmente para meu marido, estrangeiro, e ele adota em inglês.

A criança que eu era queria mar de piscina todo santo dia. Ou pior: havia meses de janeiro escorchantes, e outros, como o famoso "Verão da Sucessora", quando só chovia o dia todo, todo dia.

Naquele verão, a família andava com barracas de praia e se reunia para assistir à tal novela e jogar cartas; nós crianças líamos gibis e desenhávamos o resto do dia. Quando terminavam as aulas, não havia como saber que tipo de verão teríamos. A única previsão era a imprevisibilidade.

Hoje, neurocientista, adulta e ciente do luxo de morar alguns meses do ano na mesma praia, acho maravilhoso ter na vida essas pequenas incertezas do clima e do mar.