O assunto amor estará sempre protegido pela legitimação do sentimento de quem ouve Cazuza, autor de 'Eu preciso dizer que te amo', com Bebel Gilberto e Dé Palmeira — Foto: Marcos Bonisson A experiência da composição não é para os gênios, mas para os abusados. Uma pena termos pactuado de outra forma. Aprendemos logo cedo que só os seres iluminados poderão fazê-la. Ou que o único destino aceitável de um verso abençoado pela melodia certa é a gravação que explode pelo país na voz de um grande intérprete. Sacralizamos algo que deveria ser leve, exercitado nas escolas primárias e de se fazer sorrindo em família. Compor versos com ou sem música abre caixas interessantes na alma humana e faz revelações inquietantes das composições alheias. Uma que não me larga é sobre o amor. Não o amor universal, ao próximo, aos filhos ou a si mesmo, mas o tal amor romântico. Afinal, por que temos no Ocidente (no Oriente é outra história) uma tradição musical secular que vive em dependência química deste sentimento? Perguntei isso a um grande compositor, criador de canções amorosas de sucesso geográfico, e ele respondeu: “Porque é o jeito que um compositor tem de falar com todo mundo. Às vezes eu nem sinto aquele amor todo, mas se eu não falar de amor, ninguém me ouve.” De Xisto Bahia, autor de “Isto é bom”, uma das primeiras músicas gravadas no Brasil, em 1902, ao cantor Panda, o mais acessado da semana, com 13 milhões de ouvintes mensais só no Spotify, muita gente não existiria se proibissem os chamegos verbais. E incluímos díspares unidos exclusivamente pelo amor: Tom Jobim, Amado Batista, Johnny Alf, Bruno & Marrone, Cazuza, Maiara & Maraisa, Roberto Carlos, Filho do Piseiro e todos os artistas populares da história do Brasil. Claro que há formas e formas de declaração amorosa, mas, em geral, o suporte canção popular exige mais objetividade do que o suporte poesia, e a busca por uma identificação imediata do ouvinte (eles não dirão, mas todos pensam nisso quando compõem) que faça o trabalho de pegá-lo pelo coração pode ser muito mais mercantilista do que sincera. Entrevistando tantos compositores nesses anos de jornalismo, e travando com eles pensamentos e reflexões existenciais, humanistas, políticas e filosóficas atemporais (não por meus conhecimentos, mas deles), sempre me perguntei por que aquilo não virava canção. Só compondo fui entender que quase sempre era estratégia. Para ter sucesso, era preciso ser mais raso. Compor sobre o amor, para eles, era jogo ganho. Diga o que for ao seu público que ele sentirá cada palavra. Faça um refrão exaltando “é o amor!” ou cante que “o amor é o calor que aquece a alma. O amor tem sabor pra quem bebe da sua água”. Tudo será aceito e ninguém dirá que não é honesto. O assunto amor estará sempre protegido pela legitimação do sentimento de quem ouve. Legal, até o ponto em que usar isso se torna covardia autoral. Bom é que há equilíbrio. Do mesmo lago sem fim saem frases como “pode ser que, entreabertos, meus lábios de leve tremessem por ti. Mas nem as sutis melodias merecem, Cecília, teu nome espalhar por aí”. Ou “sim, me leva para sempre Beatriz. Me ensina a não andar com os pés no chão. Para sempre é sempre por um triz. Ai, diz quantos desastres tem na minha mão. Diz se é perigoso a gente ser feliz”. Ao final, de rasos ou profundos, o que bate aqui e aí é o que importa.
Covardias verbais
O assunto amor estará sempre protegido pela legitimação do sentimento de quem ouve














