Vou contar-lhe uma coisa, mas tem de prometer que, para já, não a conta a ninguém. Ainda não sei o que fazer com isto. Tem de prometer que não me julga, que não me faz refém desta confissão que a si, e só a si, quero confiar.Não há maneira de dizer isto com jeito, às prestações, como antigamente os pobrezinhos compravam televisores. Tem de ser de chofre, de chapa, como um mergulho lançado da encosta mas em voz baixa: estou grávida.Eu sei que dizer-lhe isto parece um truque de guião de telenovela. Sei que, provavelmente, não quer saber, porque o filho não é seu. E talvez o intrigue o facto de eu lhe querer contar precisamente a si, que apenas deslizava o dedo no ecrã durante um breve momento livre e decidiu vir queimá-lo aqui. Bem-feito. Desculpe. Quem manda trocar o presente por este não-lugar envenenado? Se vinha fugir à vida, aos problemas, meteu-se numa alhada maior.Porque, se lhe conto isto, não é por confiar em si. É porque faz parte da narrativa. É verdade: é o pai da criança. Não venha dizer que não se lembra da vez em que estivemos juntos. Não insinue, com essa desconfiança, que sou uma galdéria. Nem me ofereça esse olhar de soslaio, esse silêncio típico da rejeição.Vou recordar-lhe quando aconteceu. Não quero que me acuse de histeria nem de ficção. Vou lembrá-lo da vez em que estivemos juntos na mesma página.Há precisamente dois meses, numa terça-feira igual às outras, apareci por aqui, no jornal, e você também. Pelo menos é o que consta no registo das visualizações. Estivemos os dois mais de cinco minutos com a mesma página aberta, tempo mais do que suficiente para haver fecundação. Eu sei que foi um acidente, que nenhum de nós queria que isto acontecesse. Mas eu sou religiosa.Por isso, precisamos de conversar.