Sou uma mulher das palavras, do transbordamento dos afetos, do apreço pela subjetividade e de um certo gosto pela melancolia. Acho bonito habitá-la, e mais bonito ainda respeitar as impotências —minhas e do outro.
Ele é um homem dos atos, da contenção que sustenta, da presença inteira que prioriza os gestos em vez das palavras. Ele acha importante seguirmos em frente: atravessar, para ele, é reverência. Eu choro as faltas. Ele segue para honrá-las.
Ele é meu pai, meu vínculo primevo e estrutural de amor. A presença que sustentou a ausência de minha mãe, que faleceu quando eu tinha 5 anos e ele, 35. A figura que me ensinou que amor se sente "e" se explica, se traduz.
Foi ele quem, tão jovem, nos ensinou a potência dos pequenos rituais que se repetem: o teatro, a tortinha de morango da Ofner, todo fim de semana. Para quem perdeu tudo de repente, repetir é ter chão e é doçura convivendo com a dor.
Ele me encontrava chorando vendo VHS da minha mãe e dizia "se você já tá triste, para que ver algo que te deixa mais triste? Você é muito melancólica". E foi o mesmo homem que me apresentou a beleza da melancolia, enchendo a casa com o violino de Cinema Paradiso. Reprovava em palavras o que me oferecia em atos. Nenhum de nós dois sabia que aquilo já era tradução.







