Exílio e maternidade frustrada dão o tom de uma narrativa instigante em romance de estreia de Fabiane Secches Fabiane Secches — Foto: Camile Svenson/Divulgação RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você O luto não é apenas um sentimento que surge com a morte de pessoas queridas, mas também com o fim de situações e relações, conforme debate o psicanalista Christian Dunker em seu livro “Lutos finitos e infinitos”. No livro, a protagonista Mariana é uma imigrante brasileira que vive com o marido e o cachorro Quincas, de 12 anos, em um país do Hemisfério Norte cujo nome nunca é revelado. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O luto não é apenas um sentimento que surge com a morte de pessoas queridas, mas também com o fim de situações e relações, conforme debate o psicanalista Christian Dunker em seu livro “Lutos finitos e infinitos” (Paidós, 2023). Nesse sentido, a também psicanalista e escritora Fabiane Secches abordou o luto em diversas esferas no seu romance de estreia, “Ilhas suspensas”. No livro, a protagonista Mariana é uma imigrante brasileira que vive com o marido e o cachorro Quincas, de 12 anos, em um país do Hemisfério Norte cujo nome nunca é revelado. Entendemos que Mariana enfrenta diversos lutos ao mesmo tempo. Além de ter experienciado a morte de pessoas queridas, como a mãe e a sobrinha, e de saber que logo vai viver o luto pelo cachorro doente, a protagonista também tem de lidar com a morte da maternidade, pois teve diversas tentativas frustradas de ser mãe por meio da fertilização in vitro. “O psiquiatra havia prescrito Zolpidem para que dormisse melhor e tolerasse a saga com menos angústia. (...) Com o Zolpidem, era como se outra pessoa habitasse a casa à noite, uma pessoa generosa e excêntrica que lhe comprava presentes de todo tipo”, conta a narradora falando de si na terceira pessoa e revelando um processo psicologicamente doloroso, que a levou a desistir de tentar engravidar. Mas talvez o principal luto que Mariana vivencia é o mais recente, em relação à mudança de país. Por mais que o deslocamento pareça ter sido almejado e ainda seja considerado positivo, a autora investiga tudo aquilo que se perde ao emigrar e os lutos envolvidos no processo de se tornar uma pessoa estrangeira. Habitar um local onde não conhece ninguém, por exemplo, provoca nela um profundo isolamento. Ao mesmo tempo, deixar de usar a língua pátria faz a protagonista se sentir deslocada e distante de suas origens. “Não é apenas uma história coletiva e pessoal que um idioma carrega, mas também um conjunto de sensibilidades, de formas de ver o mundo. Somos quem somos num idioma e não em outro. Quanto mais nos afastamos das raízes desse idioma, mais larga pode ser a distância entre dois eus”, explica. Vida vazia de sentido Assim, os enfrentamentos da morte da língua, de suas relações sociais e de suas expectativas em relação à nova terra são acompanhados de lutos antigos em um tom melancólico e moroso, que torna o romance intimista, centralizado nos sentimentos de Mariana. Há muitas outras obras que apostam em fluxos de consciência e na potência na voz narrativa para cativar o leitor por meio da prosa, como “A paixão segundo G.H.”, de Clarice Lispector, e “Morreste-me”, de José Luís Peixoto. Porém, em “Ilhas suspensas”, talvez por se tratar de um romance de estreia, quase não há acontecimentos externos influenciando o desenvolvimento dos conflitos psicológicos e a narração se dá em um estilo direto e contido. Também é possível observar na obra um tom ensaístico — são diversas as citações a filmes e livros. Em alguns momentos, elas se tornam referências sem um propósito maior ou claro, mas quando bem amarradas com a história viram fugas narrativas com boas reflexões. A protagonista, por exemplo, destrincha o amor por seu cão Quincas a partir da obra da bióloga Donna Haraway, mostrando o quão intensa e significativa pode ser a relação entre um ser humano e um animal. Haraway acreditava, por exemplo, que cães e seres humanos coevoluíram ao longo dos anos, de forma que não apenas os modificamos biologicamente como fomos modificados por eles. Mas a letargia de Mariana não é quebrada pela relação com Quincas ou pelos fluxos de pensamentos. Apenas quando ela começa a desenvolver amizades com um grupo de mulheres também imigrantes e mais velhas, que se reúnem recorrentemente, ocorre o encerramento do arco dramático. Ao falar de suas dores enquanto estrangeira, Mariana passa a conviver melhor com os sofrimentos pregressos e, no decorrer do livro, temos a sensação de acompanhar uma metamorfose. A protagonista percebe que ser imigrante equivale a ter a personalidade moldada por lutos territoriais e linguísticos, pelas novas relações estabelecidas e pelas ilhas suspensas que construímos, locais mentais onde guardamos memórias e fragmentos de quem somos. Bruna Meneguetti é escritora e jornalista
Em 'Lutos finitos e infinitos', a arte de enfrentar as perdas
Exílio e maternidade frustrada dão o tom de uma narrativa instigante em romance de estreia de Fabiane Secches













